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quarta-feira, dezembro 05, 2012

Que caminho?

Lido, a pedido,  na sessão da Assembleia de Freguesia de canelas, de 5/12/2012:

Exmª mesa da Assembleia, Exmºs elementos da junta de freguesia, exmº público presente, caros membros desta Assembleia.

Como terá já sido dito, motivos de ordem profissional me impedem de estar neste momento a desempenhar as funções de membro desta Assembleia. No entanto, jamais poderia deixar de dizer o que me vai na alma neste momento. É, por isso, como cidadão desta freguesia de Canelas que dirijo estas palavras a todos os presentes.
Estamos, aqui e agora, perante um facto que, apesar de não ser estranho nem novo, se afigura cada vez mais como definitivo: a extinção da identidade da freguesia de Canelas.
Até há bem pouco tempo percebia-se que todos os órgãos políticos - de todas as freguesias do concelho - em conjunto com a Câmara e Assembleia Municipais, estavam dispostos a tudo fazer para evitar o desaparecimento de qualquer freguesia do concelho de Estarreja. A mim, parece-me que além de um punhado de reuniões nada mais terá sido feito e, se foi, devia ter sido mostrado. Tal não aconteceu, pelo que é legítimo pensar-se que o empenho foi muito menos do que o desejado.
Recordo aqui e a - propósito - as diversas intervenções feitas na Assembleia Municipal na sua reunião de 12 de Julho em que a unanimidade sobre este assunto foi nota dominante e em que, se percebeu uma geral aversão a que Estarreja perdesse uma freguesia que fosse.
Nessa reunião tive oportunidade de perguntar aos membros da Assembleia Municipal até onde estariam dispostos a ir, caso a decisão do governo não sofresse alteração. Sim, porque sempre entendi que dizer apenas que não queríamos a extinção de qualquer das 7 freguesias não nos iria ilibar desta manobra patética perpetrada por este governo.
Nessa altura a pergunta ficou sem resposta. Decidiram então os membros eleitos - também pelo povo de Canelas, Fermelã e Veiros, repito, também pelo povo de Canelas, Fermelã e Veiros – que se deveria esperar a ver onde paravam as modas. Daí para cá, decorridos cerca de 5 meses, nenhuma acção visível foi desenvolvida por forma a dizer aos palhaços deste circo que em Estarreja mandam os Estarrejenses, assim como em Canelas, os Canelenses.
É bom que se saiba que o topónimo “Canelas” ligado a esta freguesia existe, pelo menos desde o séc. XI. Canelas pertenceu aos marqueses de Angeja que tinham autoridade sobre o concelho de Figueiredo - mais tarde Bemposta - tendo beneficiado do seu foral datado de 15 de Agosto de 1514.
A partir de 31 de Dezembro de 1853, com a extinção do concelho de Angeja, passou a pertencer ao de Estarreja.
Significa isto que aqui já se viveram pelo menos 10 séculos de história!
Uma história que agora uns iluminados mentecaptos se acham no direito de apagar das nossas memórias, como se nunca tivesse existido.
Estamos, de facto, dispostos a permitir que tal aconteça? E como o evitar?
Desde já me parece preocupante que, passado cerca de 1 mês sobre o conhecimento da proposta apresentada pela Unidade Técnica e que prevê a fusão das freguesias de Canelas e Fermelã, e Veiros e Beduído, tudo esteja tão sossegado, diria mesmo, num quase completo alheamento da gravidade desta situação. Se algo está a ser feito por parte dos órgãos autárquicos, será provavelmente do desconhecimento da população e mesmo dos membros desta Assembleia. E, se de facto está, que resultados está ou irá a produzir?
Em 21 de Novembro tive oportunidade de expressar (uma vez mais) a minha preocupação sobre este assunto, num mail que enviei ao José Gabriel e que não mereceu qualquer resposta até à data. Solicitei igualmente ao sr. Presidente da Assembleia uma reunião extraordinária, num horário diferente, suficientemente divulgada para permitir a presença do povo desta freguesia a fim de que este possa perceber o que se está a passar.
Quando, por alturas do documento designado por livro verde, que ilibava a nossa freguesia - tal como a de Fermelã - deste processo de agregações, aqui disse que não deveríamos ficar tranquilos ou desatentos deste assunto, porque as regras do jogo poderiam mudar, sabia do que falava.
As regras, de facto, mudaram, e após muitos pontapés, a bola caíu no terreno dos mais fracos, o mesmo é dizer, dos mais pequenos. Era óbvio!
E, de repente, parece que tudo se calou. E pergunto eu: Estaria assim tudo tão sossegado caso as freguesias a agregar fossem Pardilhó, Avanca, Salreu ou Beduído? Não o creio.
Dir-me-ão que se têm feito uma infinidade de reuniões e mais não sei o quê sobre este assunto. Balelas, sem qualquer peso ou resultado prático como se pode constatar.
Senhores presidentes da Assembleia e da Junta, importa saber - de todos os que viravam o concelho ao contrário, se necessário fosse, para evitar que esta reforma viesse a ser uma realidade - quantos estão connosco, agora que as suas freguesias ficaram livres de toda esta ignóbil manobra.
Importa saber o que está a Câmara Municipal disposta a fazer para conseguir o que sempre propalou: a defesa das 7 freguesias do concelho.
Importa saber igualmente o que pretende fazer a Assembleia Municipal para evitar o desaparecimento de qualquer freguesia, assim como esta Assembleia e o povo de Canelas.
Uma das medidas já adotada por diversas freguesias (dos concelhos de Leiria, Matosinhos, Santarém, etc…) resultou na interposição de Providências Cautelares nos Tribunais Administrativos.
É um dos caminhos possíveis para, pelo menos, atrasar o processo, se possível até ao final da legislatura deste governo, na esperança de que o próximo deixe caír esta patética reforma.
Obviamente que esta medida tem os seus custos e aqui exige-se que seja a Câmara Municipal a suportá-los. E não fará mais que a sua obrigação.
Não sei quantos vereadores estão aqui presentes nesta sessão da Assembleia de Freguesia nem tão pouco se o sr. Presidente da Câmara se dignou comparecer, pelo menos hoje, a fim de dizer que está connosco e, em conjunto, se poderem delinear as acções necessárias e possíveis. Sei que há poucos dias cá estiveram todos por altura da inauguração da bateira, como estão quando o motivo é uma qualquer festa que, por conveniência, se veste de cultural. Parece-me que este assunto será de muito maior importância para a vida dos Canelenses do que tudo o que se tem - ou não – por aqui feito até agora.
Pela minha parte jamais pactuarei com este bando de irresponsáveis que se acham no direito de brincar com a identidade e com a história do povo de Canelas e de tantas outras freguesias deste país.
Não podemos acobardar-nos nesta hora e deixar que outros decidam o nosso futuro! É preciso agir e tudo fazer para o impedir.
A determinação não se vende em latas nos supermercados; gera-se no sangue das gentes desta terra que sempre souberam traçar os caminhos que nos trouxeram até aos dias de hoje.
É responsabilidade nossa honrar quem fez desta terra a nossa terra.
Seremos sempre de Canelas e jamais de qualquer outra!
Espera-se que nesta Assembleia se desenhem as medidas necessárias para pôr fim a tamanha e inclassificável violência para com esta terra e as suas gentes.
Apesar de não estar presente, quero dizer-vos que estarei totalmente solidário com o que vier a ser decidido e que tenha por objectivo pôr fim a esta infame palhaçada, bem como a ombrear com todos aqueles que se recusem a aceitar este destino que nos querem dar, por todos os meios e formas possíveis.

Viva Canelas!

Canelas, 5 de Dezembro, de 2012.

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