Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

ATÉ AO ÚLTIMO CÊNTIMO

O governo segue a rigor a sua política miserável de empobrecimento do povo. As portagens, indevidas, nas estradas construídas para serem alternativas gratuitas às AE, constituem mais um soco no estômago dos portugueses. Para muitos será fatal.
Os mesmos que há poucos meses atrás se insurgiam contra os aumentos de impostos, contra a introdução das portagens, contra o aumento do custo com a saúde, contra o desemprego, contra o alastramento da pobreza, os mesmos que afirmavam ter planos alternativos a estas medidas, não têm feito outra coisa que sugar cegamente e sem qualquer escrúpulo,  o que ainda resta nas algibeiras do povo.  E fa-lo-ão até ao último cêntimo!
Adivinha-se um crescimento desmedido do desemprego, pelo facto simples de que, em não raros casos, o salário auferido é consumido por inteiro nas despesas de transporte, de e para o local de trabalho.
Tomemos por exemplo um cidadão que se desloque diariamente de Viseu para Aveiro. Um veículo de classe 1 passa a pagar, a partir de hoje, 14,80 € / dia! Em 20 dias, a soma ascende a 296,00€ (quase 60 contos na moeda antiga!), a que haverá que somar as despesas com o combustível e outras despesas fixas inerentes aos veículos automóveis. Sessenta contos de portagens é qualquer coisa de monstruoso, inaceitável e impraticável.
Por outro lado, um camião com 4 ou mais eixos, no percurso Aveiro - Vilar Formoso -  Aveiro, paga 88,80€/dia (dezassete contos e oitocentos!).
Aqui chegados, pergunta-se:
- Quanto tem de ganhar um cidadão nestas condições, para que possa ter dinheiro para comer? Ou melhor: o que é que é preciso mais para que este povo acorde para a realidade e corra com este bando de loucos que o depena barbaramente e sem piedade?
Somos mandados por estrangeiros, à mercê de estrangeiros, manipulados por estrangeiros, depenados por estrangeiros. Vendida  a Pátria (até a lusa  língua) nada mais resta que admitir e assumir por inteiro que somos, tal como Guerra Junqueiro escrevera, há 115 anos,

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias; um povo em catalépsia abundante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
(...) Uma grande parte da burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, ente a indiferença geral, escândalos monstruosos (...).
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela saca-rolhas;
(...) Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei também que toda a obra governativa que não for obra de filosofia humana, resultará em geringonça anedótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.
A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade.
(...) Alma! eis o que nos falta. Porque uma nação não é uma tenda, nem um orçamento uma bíblia."

A Pátria, 1896