Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

quarta-feira, outubro 12, 2011

EM DESACORDO ORTOGRÁFICO

Desde os bancos da escola primária que me habituei a não dar erros ortográficos, facto esse que prezo em manter até aos dias de hoje.
Bem sei que nem todos darão a mesma importância a este facto. Lamentavelmente nem o sistema de ensino terá esse aspecto como fundamental, caso contrário tenho por certo, que metade dos actuais alunos universitários nunca lá chegariam. Talvez as novas regras venham abrir o leque e fazer com que não se perceba quando se está a escrever bem ou se está a dar erros… o que facilita as coisas aqueles que querem um país com um nível de ensino exemplar radicado, por exemplo, nas Novas Oportunidades.
À beira dos 50 anos, um estúpido e desnecessário acordo vai obrigar-me (a mim e muitos outros) a fazer o que, como disse atrás, não faço desde a infância: dar erros ortográficos.
Resistirei até onde tal me for possível; não por mera birra ou incapacidade de adaptação às novas regras, mas tão somente por total desacordo e repúdio pela descaracterização da língua portuguesa, assim desta forma ligeira e ingrata, de subjugação a um brasileirismo caricato e incómodo.
A haver necessidade de reformulação de algumas regras, devem as mesmas ser definidas no âmbito de uma reforma do ensino que se deseja, mas nunca assente na satisfação de caprichos que vêm do outro lado do Atlântico.
No Brasil fala-se Português. Se as regras que lá se adoptam não os satisfazem que as mudem eles. Ou que construam a sua própria língua. Agora abrasileirar o Português não passa de  um acto de total desrespeito pela nossa língua, com o qual jamais concordarei. E como eu, muitos milhares de cidadãos - estou certo.
Assim, de repente, mercê de um grupo de iluminados para quem o Português parece ser um estorvo, lá teremos Garret, Jílio Dinis, Pessoa, Mourão Ferreira, Saramago, Cesariny, Mello Breyner, etc., etc., carregadinhos de erros.
No mínimo, referende-se este tema, para que qualquer que seja o resultado, o mesmo confira autoridade à decisão, e não seja a mesma tomada por meia dúzia de líricos, provavelmente os mesmos que um dia almejaram mudar o Hino Nacional por pretenso incitamento à violência.
Muito se tem escrito sobre este assunto e são já muitas as histórias que fazem parte do anedotário nacional, resultantes da aplicação do tal Acordo. Contudo, há também quem argumente brilhantemente a sua discordância, como é o caso do autor do texto que deixo abaixo, o qual subscrevo e sublinho integralmente, não sem antes referir que, tal como está dito no cabeçalho do blogue, aqui se continuará a escrever Português - de Portugal.


Omens sem H

Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim. Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje. Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas. Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico. É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen? Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo. Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.

Por Nuno Pacheco
Jornalista

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