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sábado, setembro 10, 2011

As voltas que o linho dava...

 "De Norte ao Sul de Portugal não havia lavrador que não cultivasse o linho, mulher que não fiasse e aldeia por mais pobre que fosse que não tivesse um ou mais teares."

O linho é, provavelmente, a planta de uso têxtil mais antiga que se conhece ligada à tecelagem, julgando-se que seja originária do Oriente. 
Devido às suas características próprias e à arte e engenho dos povos, o cultivo artesanal do linho foi durante séculos uma importantíssima actividade das comunidades rurais, contribuindo não só para a sua subsistência mas também para a cura de males e maleitas devido às propriedades medicinais das suas sementes.
Ao cultivo do linho está intrinsecamente ligado um manancial de ritos, lendas e cantigas, de uma riqueza cultural impagável e que, infelizmente, se vai apagando da memória e da vida de todos nós. 
Pretende-se aqui recordar, ainda que singelamente, as voltas que o linho dava com o auxílio de algumas fotografias dos instrumentos então usados, recolhidas no Museu Municipal de Vouzela, não sem antes lamentar a não existência de qualquer espaço similar neste concelho de Estarreja dedicado à preservação daquilo que durante séculos fez parte da vida deste povo, e que constitui um invejável património histórico-cultural.

Dependendo da zona do país,  a sementeira do linho decorria nos meses de Abril ou Maio.
A terra era fertilizada com estrumes de animais, lavrada e gradada (gredada) da mesma forma que o era para a sementeira do milho. Depois de pronto,o terreno era, por vezes,  dividido em margens, separadas por regos, tal como era usual fazer-se por exemplo nas sementeiras do centeio.
O linho para se desenvolver necessita de muita  humidade e calor, pelo que a rega frequente e por alagamento se tornava imprescindível.
Antes da floração, a sementeira era mondada de todas as ervas daninhas para que o linho crescesse limpo.
Depois de amadurecido, o linho era arrancado pela raíz, atado em molhos e transportado em carros de bois para as eiras onde era ripado, a fim de largar a baganha (pequenos casulos que continham a semente designada por linhaça e que, depois de seca,  servia para a nova sementeira, bem como para diversas aplicações medicinais e culinárias).


De seguida, era atado em pequenos molhos e colocado num  rio ou em pequenos charcos, onde ficava submerso por um período de dez a 15 dias (este processo separava a parte lenhosa do caule, das fibras) para ser depois novamente transportado para as eiras onde secava durante aproximadamente uma semana. Durante a seca era virado  várias vezes ao dia, cuidadosamente para que as fibras se não  partissem.
Era depois malhado ou maçado (com moais ou maças)  e posteriormente espadelado - processo que consistia em segurar uma mão cheia (mancheia) de linho na parte superior do cortiço e nele bater várias vezes com a espadela até que toda a casca (parte lenhosa) fosse retirada, ficando apenas a parte fibrosa do caule da planta.

O linho era depois passado no sedeiro - intrumento de madeira com dentes de ferro ou aço, que fazia a separação entre a estopa e o linho. Os fios mais curtos e grossos formavam a estopa e os mais longos e finos, o linho.
O linho era depois agrupado em estrigas, as quais eram enroladas sobre si mesmas  a fim evitar que as fibras se embrulhassem umas nas outras. 
Depois, o linho era transformado em fio, mercê de um hábil manuseio da roca e do fuso, ou com o auxílio de uma roda de fiar para de seguida, através do sarilho, ser convertido em meadas, que eram depois lavadas com sabão e batidas na pedra dos tanques.
Todas as meadas tinham aproximadamente a mesma grossura, considerando-se o  espaço que fica entre os dedos anelar e polegar dobrados um até ao outro, a medida certa.




As meadas destinadas à fiação,  passavam por um processo de branqueamento designado de barrela, em que eram colocadas num cortiço, em camadas, entre as quais era colocada cinza. Depois de cheio, o cortiço era tapado com um pano completamente coberto com cinza que servia de filtro . 
O branqueamento era feito com água bem quente, despejada pela parte superior do cortiço, atravessando assim as diversas camadas nele apostas.  Este processo durava normalmente 2 a 3 dias, após o que as meadas eram novamente lavadas e colocadas a secar em coradouro. Outro processo de barrelar consistia na colocação das meadas em panelas de ferro, onde  eram fervidas durante um dia inteiro em  uma mistura de água, cinza (peneirada) e sabão.
Terminado este processo, as meadas eram convertidas em novelos através da dobadoira, após o que ficavam prontos para a elaboração dos mais diversos trabalhos como por exemplo, toalhas de mesa, lençóis, colchas, panos de cozinha, etc.
A estopa que não sofria o processo de branqueamento era utilizada na feitura de panos crus, como  lençóis mais grossos e mantas.
E ao som de cantigas e histórias, se passavam  longos serões de Inverno, dando voltas e voltas  em volta do linho...
 É, pena de facto, que todo este património, que provavelmente ainda existe no concelho, esteja a perder-se ou tenha já sido perdido na sua maioria, por falta de interesse por estas coisas, em benefício de outros valores culturais de dúbio valor ou interesse.
Quanto ao ciclo do linho, fica o desafio para que alguém ou alguma entidade dele se lembre e o queira reviver, por exemplo por alturas de uma qualquer semana cultural.

Para terminar, e para que se possa apreciar toda a beleza que rodeia as voltas que o  linho dava, vale a pena ver os vídeos abaixo, retirados do youtube.





1 comentário:

Anónimo disse...

Eram realmente muitas as voltas que se tinham que dar ao linho, até o transformar em bonitas peças de adorno. Não que alguma vez tenha assistido a esse trabalho, mas sim porque ouço da boca da minha mãe.
Mostrei-lhe o post, e ela recordou todas estas passagens, comentando que, na casa dos pais tinham todos estes instrumentos que manuseava com perícia.
Seria realmente interessante que alguém se lembrasse de reviver todas estas "voltas".
Bem haja por ter recuado no tempo e aqui trazer este escrito tão interessante.
CPTS