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sábado, agosto 20, 2011

CARTA AO PRIMEIRO MINISTRO

Exmº Sr. Primeiro Ministro:


No uso do Direito de Expressão e Opinião que a Constituição Portuguesa me concede e, mesmo que possa V. Ex.ª ignorar estas considerações pessoais venho respeitosamente,  dizer-lhe o seguinte:

Apenas nos separam em idade alguns meses. Entrámos ambos na JSD mais ou menos na mesma altura e ambos vivemos intensamente essa militância na década de 80 do século passado.

A Social Democracia foi a causa que nos fez dar muito de nós, cada um na sua medida e proporção, naturalmente.

Contudo, apesar dessas semelhanças/aproximações, em 05 de Junho, não votei em si – nem em nenhum outro candidato - para primeiro ministro de Portugal, apesar de me parecer que seria V. Ex.ª o natural sucessor de José Sócrates.

A responsabilidade do meu voto em branco, e provavelmente do de mais alguns milhares de eleitores, que votaram de igual modo ou se abstiveram é, por inteiro, da classe política que nas últimas décadas tem governado o país desta forma escabrosa que está à vista de todos e que se estende até uma grande parte dos autarcas que presidem a Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.

Ao início quis ver em V. Ex.ª ideias, capacidades e energia passíveis de suportarem uma mudança radical na forma de fazer política e de assim erguer as reformas necessárias e imprescindíveis à recuperação económica do país. Quis quase dar-lhe o benefício da dúvida no momento de votar, mas o péssimo desempenho de quase todos os seus antecessores, mesmo os do seu partido, falou mais alto nesse solitário instante de decisão.

Em resultado do último acto eleitoral, a esmagadora maioria dos que votaram manifestaram clara e inequivocamente que estavam fartos de uma situação política irresponsavelmente levada até às últimas consequências pelo anterior governo – contra a qual V. Ex.ª, enquanto oposição, se insurgiu - e que culminou com o pedido de ajuda externo.

Ninguém esperava, pelo menos nos próximos tempos, tarefa fácil; nem para si nem para nós. Um país cansado de mentiras e aldrabices, aliadas a tresloucados actos de gestão, percebe que não é do dia para a noite que se opera uma recuperação que se deseja.

Como sabe, o país vive, provável e presentemente, o período mais difícil da sua já longa história porque, ao invés de se fomentar a produção, governos houve que pagaram para se não produzir, para se não pescar, para se não trabalhar, e foram fechando os olhos a inúmeros casos de corrupção, fuga de impostos, off-shores e malabarismos financeiros nas EP’s e nas Parcerias Publico-Privadas, cuja principal actividade que se lhes reconhece é a de verdadeiros sorvedouros dos dinheiros públicos. Governo e banca criaram aqui, ao longo dos anos, um verdadeiro paraíso fiscal e financeiro alicerçado em facilidades na obtenção de rendimentos, subsídios e empréstimos, só ao alcance de alguns (muitos).

Dos milhões e milhões de euros aqui injectados, via CEE, anos a fio e a fundo perdido, para a modernização agrícola, industrial e tecnológica, restarão visíveis algumas moradias de luxo, carros topo de gama, iates e, provavelmente algumas contas bancárias fora do país, sem que nenhum governo com isso se tenha importado.

Aqui chegados, não será de espantar a situação presente e real do país.

V. Ex.ª, enquanto líder da oposição, foi mostrando um discurso de rompimento com muitos dos erros cometidos no passado, e que, aliado a uma postura bem diferente do então primeiro ministro, fez acreditar que saberia e poderia fazer diferente.

As centenas de nomeações feitas até ao momento e de que destaco, apenas por mero exemplo, as do Conselho de Administração da CGD, vêm dizer o contrário e mostrar que continuamos a ter mais do mesmo.

Como disse atrás, não votei em si mas sou um contribuinte que forçosamente cumpre com as suas obrigações fiscais, e um daqueles a quem o Sr. pretende retirar metade do subsídio de Natal.

Devo dizer-lhe que aceito de bom grado esse tal imposto - a que chamam de extraordinário - mas só depois de o Estado, leia-se Governo, Assembleia da República, Presidência da República, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia e EP’s adoptarem políticas de rigor e de contenção da despesa. Caso contrário, o que V. Ex.ª se apresta a praticar tem o nome de roubo. Acredite que ainda há muito por onde cortar antes de ir novamente ao bolso dos contribuintes.

Quer exemplos?

- pode começar por reduzir, pelo menos para um terço, a frota de carros topo de gama que estão ao serviço dos senhores da política.

Aponte-me Sr. Primeiro ministro a razão porque tem o Estado (nós) de pagar BMW’s, Mercedes, Audis & companhia e um regimento de motoristas àqueles que ganham 5 e 6 vezes mais, só de salário base - entenda-se – enquanto qualquer cidadão contribuinte se tem deslocar a expensas suas para o seu local de trabalho, mesmo que o seu vencimento não vá além de 500 euros. Saberá do que falo porque tem dezenas à sua volta.

- Reduza ou retire mesmo todas as mordomias dos administradores das EP’s e fixe os seus salários abaixo do vencimento do presidente da república;

- Emagreça substancialmente o Orçamento da Assembleia da República. Estou certo que o poderá fazer pelo menos para metade.

- Responsabilize o Tribunal de Contas ou uma qualquer Comissão por analisar quanto gastam as autarquias em festas e actividades ditas culturais mas de qualidade e interesse duvidosos, bem como em obras sem qualquer interesse colectivo, e prive-as das transferências desses montantes do Orçamento do Estado;

- Analise quantos cidadãos cumprem os critérios de atribuição do rendimento mínimo e retire-o aos que não os cumprem;

- Acabe com as PPP, sobretudo aquelas que apenas têm servido para encaixar amigos, amigos dos amigos e familiares dos amigos, pagos a peso de ouro e que nada mais têm feito do que apresentar milhões de prejuízo.

- Acabe de vez com os insultos aos contribuintes, como a recente atribuição de um carro de luxo, motorista e secretárias ao ex-presidente da Assembleia da República Sr. Mota Amaral (Diário da Assembleia da República II Série – E, de 24 de Junho de 2011).

Bem sei que a maneira mais fácil de injectar dinheiro nos cofres do Estado é carregar em cima dos contribuintes mas saberá, por certo, que a classe dita média foi sempre o suporte económico do Estado. É ela que suporta os benefícios, subsídios, Rendimentos Mínimos etc, atribuídos à classe mais pobre, e é a ela que o Estado recorre para cobrir a Receita que falta dos impostos que os mais ricos não pagam.

É esta classe que V. Ex.ª, tal como todos os seus antecessores, fustiga constante e impiedosamente com sucessivos aumentos de impostos, que está a desaparecer a olhos vistos, ou não vê V. Exª os telejornais?

De facto, passado tão pouco tempo ainda sobre a sua tomada de posse, alguma esperança que poderia haver na adopção de políticas justas desvaneceu-se por completo.

O país precisa de sair da situação em que se encontra, todos o sabemos, mas não pode ser a qualquer preço, sob pena de em pouco tempo restarem apenas os pobres e os demasiado ricos. Se o Estado precisa de dinheiro – e precisa – só tem dois caminhos a seguir sem sufocar os contribuintes:

1- Reduzir drasticamente a despesa pública, e pode fazê-lo como acima se demonstra.

2- Apostar no crescimento económico e na melhoria das condições de vida dos contribuintes, o que fomenta o comércio e o desenvolvimento.

Não serão necessários grandes conhecimentos de economia para perceber que sem o cumprimento destes dois pontos jamais a situação do país evoluirá positivamente. O aumento desregrado de impostos que V. Exª pretende efectuar, reduz o poder de compra, logo menos impostos para o estado, fecha empresas e cria desemprego, logo mais pobreza e mais encargos para o estado social.

O caminho que V. Ex.ª está a seguir terá precisamente o efeito contrário ao necessário. Pense nisso antes de aniquilar de vez a única classe que o pode ajudar a recuperar a credibilidade e a economia do país.

O que o país verdadeiramente precisa é que V. Exª governe de acordo com o discurso que foi produzindo enquanto líder da oposição, mas que em tão pouco tempo ousou esquecer/mudar por completo.

Nada mais que isso.



Camilo Rego

C.C. nº 06459509

Enviado em 20 de Agosto de 2011.




4 comentários:

Antonio Aguiar disse...

Eu assino e confirmo !!!
Abraco

Antonio Aguiar

Anónimo disse...

Subscrevo inteiramente o conteúdo da carta e um bem haja para a sua coragem e determinação.
Cpts

aisongamonga disse...

Assino por baixo.

aisongamonga disse...

Assino sem hesitações.