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quarta-feira, junho 08, 2011

Sócrates já foi

e a história lembrar-se-á dele, da mesma forma que nós nos lembraremos certamente e por muito tempo, sempre que nos caia em cima qualquer medida resultante do acordo com o FMI/BCE/CE.
De facto, o homem teve tudo para governar bem: uma maioria, impostos directos e indirectos sempre a subir, a cumplicidade do presidente da república e a infinita paciência do povo. Deveria ter sido suficiente. Teve ainda oportunidades de evitar o descalabro total com a aprovação de 3 (!!!) PEC's. Falhou, e o povo não foi mais em cantigas; mandou-o embora. Sócrates deveria saber que quem o elege é quem corre com ele,  e a perda da maioria em 2009 era já um sinal claro de que o seu estado de graça caminhava para o fim.
A sua insistência na recandidatura foi um acto de suicídio político como escrevi [aqui], em 09 de Abril.  Era óbvio.
Não saberemos se o novo governo vai ser melhor mas sabemos que dificilmente poderá ser pior. Ficará para mais tarde esta análise.
Falava de José Sócrates para dizer que na hora da derrota, nos seus derradeiros minutos como protagonista do filme que ele próprio realizou, acabou por ser igual a si próprio: manipulador.
Perdida a glória, o seu discurso, contrariamente às análises que li/ouvi sobre o mesmo, mais não foi que  uma tentativa desesperada de sair com um resquício de honra, que acabou por se transformar num momento penoso, que ele prolongou até ao limite do aceitável.
A hora da derrota jamais deve servir para habilidosas tentativas de manipulação da opinião pública. E foi o que José Sócrates pretendeu, ao fazer um discurso em que provavelmente se esqueceu  (ou confundiu) que estava a falar,  não apenas  para o partido mas para o país inteiro. Discurso esse que  não deveria ter passado dos 2 ou 3 minutos. Bastar-lhe-iam 3 notas breves para saír com alguma dignidade:
1- Chamar a si a responsabilidade (óbvia) do resultado eleitoral - fê-lo e muito bem.
2 - Demitir-se da liderança do PS - fê-lo e muito bem.
3 - Assumir, por inteiro, que não cumpriu com o que prometeu e se propôs fazer.
E foi neste ponto 3 que Sócrates estragou tudo transformando o seu discurso em  mais um momento de hipocrisia tão ao seu jeito, em que procurou vitimizar-se ridiculamente. 
Ao invés de assumir o fracasso da sua gestão de 6 anos,  Sócrates usou da palavra (como mestre que é da oratória) como um verdadeiro estadista que, após ter prestado inegáveis serviços ao país, acaba por ser injustamente afastado de cena. Nada mais falso,  e até o facto de ter optado por recusar qualquer cargo partidário no futuro, para não influenciar nada nem ninguém,  denota a mania da superioridade que foi sempre sua companheira. Tal decisão  deveria ser comunicada aos órgãos partidários, em momento próprio, mas José Sócrates sempre preferiu as luzes da ribalta para ofuscar o conteúdo vão dos seus discursos.
De nada lhe valeu; saíu sem honra nem glória, ao contrário do que pretendia.  Só não perceberam os que ainda estão no estado de hipnose em que ele habilmente os colocou, e que durará apenas e tão só até ao momento do aparecimento de um novo líder. 
A página virou-se.  O novo governo tem até mais e melhores condições para trabalhar bem: uma maioria, um presidente da república da mesma cor, e uma oposição comprometida até dizer chega e que não tem legitimidade para passar o tempo a apontar o dedo gratuitamente, como sucede quase sempre.
Espera-se também que o passado não seja  a referência constante  e justificadora de todas as políticas do novo governo. Seria mau de mais e demonstrativo de falta de capacidade em fazer a diferença.
O primeiro desafio de Passos Coelho será conseguir manter o governo unido e a falar a uma só voz. Conhecendo Paulo Portas como se conhece, dificilmente haverá paz na governação,  pelo que veremos se temos efectivamente um governo para 4 anos...
Uma última nota para referir a afirmação do sr. presidente da república no dia antes das eleições.
Terá razão em dizer que quem se abstém de votar   perde o direito de criticar, na mesma medida em que quem é eleito é obrigado a cumprir com as suas obrigações de bem servir o estado, e a representar condignamente quem os elege. Enquanto tal não acontecer, não nos venha contar anedotas de mau gosto.
Perceba que quem se abstém ou vota em branco manifesta a sua vontade, tal como quem o faz através do X que coloca no quadrado do boletim de voto,  e que  traduz uma posição crítica em relação ao estado da política e aos actuais políticos e, tendo em conta a percentagem da abstenção e de votos brancos deveria - isso sim - a mesma passar a ser tida em linha de conta. 
Caber-lhe-á também a si, sr. presidente, convencer-me a mim e aos outros 148.057 que como eu votaram  em branco, bem como aos três milhões e oitocentos mil que se abstiveram (ainda que este número possa ser realmente inferior) e ainda aos 75.280 que anularam o boletim de voto,  a votar num dos partidos que venham a concorrer ao acto eleitoral de 2015. Vamos a isso!

1 comentário:

Gaspar de Jesus disse...

Excelente esta sua análise.
Parabéns CC
Sócrates nunca mais!
A não ser que tudo isto vire um manicómio.
Gaspar de Jesus