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domingo, março 13, 2011

UM PAÍS À RASCA

Imagem de "O Público". Clicar para ler a notícia.

Na ordem do dia está, sem dúvida,  o protesto da denominada "Geração à Rasca."
Entendem-se como válidas as razões que levaram ao ajuntamento das pessoas que se manifestaram ontem em diversas cidades do país. Todavia importa não desresponsabilizar por completo a dita geração, que foi sistematicamente assobiando para o lado enquanto o país se afundava económica, social e culturalmente.
Importa não esquecer que esta é uma geração que se alheou - falo na maioria pois há evidentemente excepções, ainda que raras - dos grandes problemas do país;
Importa também lembrar que foi esta a geração que hipotecou valores e deveres lutando apenas por direitos que ela própria se achou com autoridade de impôr;
Foi esta a geração que descaracterizou escolas e universidades, desautorizando professores e educadores;
Foi essa mesma geração que incentivou, apoiou e efectivou o assassínio da língua portuguesa com africanismos, inglesismos e outros estrangeirismos; bué da fixe, meu, topas?
É a mesma geração que tem permanecido alheia às suas obrigações de cidadania de que os actos eleitorais são mero exemplo. Quantos têm tido uma participação activa demonstrando através do voto a sua linha de pensamento? Estou certo que, se um dos motivos da manifestação foi protestar contra a actual classe política, 600 ou 700 mil votos em branco produziriam muito melhor efeito do que igual número de jovens na rua a gritar palavras de ordem contra o governo e oposição, tanto mais que tanto uns como outros padecem de surdez crónica.
Pergunto daqui a esta geração, onde é que ela está quando se trata de discutir os problemas das suas terras? Quantos se disponibilizam para fazer parte dos órgãos autárquicos locais ou municipais, onde podem adoptar uma forma de actuação que rompa com esse passado contra o qual lutam? E dos poucos que o fazem, quantos assumem posições de isenção, independência e rigor em favor dos que os elegeram, sem se deixarem envolver na engrenagem partidária que lhes estende carris em vez de mar aberto?
A título de exemplo, pergunto  onde tem estado esta geração, aqui na minha terra, quando se discute o encerramento da escola ou do posto médico? Claro, da escola já não precisam e do  posto médico, por enquanto também não. Onde estiveram quando se debateu o tema da bacia de retenção, ou dos crimes ambientais que aqui se produziram? Onde estiveram quando se encetou a luta pela manutenção do apeadeiro, etc., etc...
E esta é a outra realidade da tal Geração à Rasca. Uma geração culturalmente pobre (sem o google não sabe coisa nenhuma), educacionalmente debilitada (uns shots resolvem momentâneamente todos os seus problemas), telemóvel-dependente e,  pior ainda, social e politicamente ausente.
Perante isto que esperavam que acontecesse? Que os da geração mais velha lhes continuassem a proporcionar o paraíso?  Pois; o problema é que essa tal geração mais velha - a dos cotas -  está, na sua maioria, a ser esmagada pelo peso dos deveres que lhes são imputados, ao mesmo tempo que os seus direitos vão sendo reduzidos ao mínimo. 
O ponto de viragem que se impunha emanasse da manifestação de ontem não tem a ver com o correr a (merecidos) pontapés com a actual classe política - pois bem sabemos que tal não é possível e, se o fosse, era à minha geração que caberia fazê-lo  -   mas antes com  o compromisso dessa geração de ser ela a fazer esse ponto de viragem pelo empenho, participação e dedicação à causa pública. Ser ela a disponibilizar-se para começar a integrar a política activa e marcá-la pela diferença, para que daqui a 10 anos possamos dizer que valeu a pena aquele murro na mesa dado em 12 de Março de 2011. Não sendo assim, o que ontem se passou não terá sido mais que uma perda de tempo de que amanhã ninguém se lembrará sequer.
E a pergunta fica: estará essa Geração à Rasca disposta a correr por ela própria e a começar a mudar o presente? Se sim, de que está à espera? Sim, porque mudar o futuro é utópico. Ninguém pode mudar o futuro mas antes o momento presente.

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