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segunda-feira, janeiro 24, 2011

OUTRAS CONTAS

Terminou mais uma eleição em Portugal e com o desfecho que era claramente previsível. Alguma admiração poderá vir apenas dos 4,5% de José Coelho, que na Madeira - uma parte do território tradicionalmente laranja e de vincado apoio a Cavaco  - ousou arrecadar 46.347 (menos 5.921 que Cavaco Silva). Esta é, de facto, uma estória dentro da história.
Não sendo o meu candidato, como o não foi nenhum dos que se candidataram, Cavaco Silva venceu com toda a naturalidade, muito por culpa dos fracos adversários que teve. Além disso, a história prova que os eleitores têm preferido sempre a continuidade à mudança no fim do primeiro mandato. Foi assim com Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e agora com Cavaco Silva.
Curiosamente ou não, o eleitorado tem escolhido quase sempre um presidente de cor política diversa do partido do governo, e nem mesmo Sá Carneiro conseguiu a trilogia por que tanto lutou: uma maioria, um governo e um presidente.
Analisando o quadro abaixo, poderá dizer-se que esta vitória de Cavaco traz junto com ela uma sombra que vai cobrindo todo o território e que é um claro e evidente sinal do descrédito que o eleitorado tem na política e nos políticos de hoje.
É óbvio que o mesmo facto político tem sempre leituras diferentes, dependendo de que lado se esteja, mas é inegável que comparativamente a 2006, a percentagem de votantes baixou de 62,6 para 47,53%, o mesmo é dizer que foram muitos mais os que não votaram do que os que se reviram em algum dos 6  candidatos. 
E, se aos 4.478.989 que votaram retirarmos os 191.013 votos brancos e os 86.479 de votos nulos, teremos que apenas 44,58% dos eleitores se dignaram escolher um candidato, o que, em bom rigor significa dizer que a abstenção real se terá situado nos  55,42%.
E esta deveria ser a grande preocupação dos políticos, e uma das primeiras meditações de Cavaco Silva que, afinal não foi eleito pela maioria dos portugueses, uma vez que dos 9.422.835 inscritos, 7.199.702 (76,4% dos inscritos) não votaram ou votaram contra o agora reeleito presidente.
Mas a democracia tem destas coisas, e Cavaco Silva vence por maioria absoluta quando   76,4% da população votante não vota nele (seja por se abster ou por votar noutro). A magia dos números democráticos, permite assim transformar os 23,6% (votos obtidos por Cavaco/total de inscritos), em maioria absoluta!
E esta é a leitura óbvia que qualquer cidadão pode fazer, desde que liberto de preconceitos e partidarismos manietadores, mas é uma leitura  nunca é feita pelos políticos deste país, mais interessados em fazer passar os discursos de vitória ou derrota, do que em ler a "moral da história".
A reflexão que se impõe, após a análise do quadro acima,  deveria procurar dar resposta a diversas questões como por exemplo:
- Qual o motivo porque  entre 2006 e 2011 a percentagem de votos em branco subiu 324%?
- Porque é que entre o mesmo período a abstenção passou de 37,4% para 52,4%?
- Porque é que mais de 4 milhões de votantes se desinteressaram deste acto eleitoral?
Pois bem, as respostas a estas e outras questões, nós cidadãos anónimos, conhecemo-las de cor, mas o que é facto é que não são elas que preocupam os nossos políticos, mais talhados para as artes culinárias em benefício próprio, leia-se tachos,  do que para a verdadeira política, responsável e de serviço do país e do povo.
De facto, os resultados desta eleição são um sinal que ensombra qualquer tentativa de celebração de vitória (bem como os 5 anos do mandato presidencial), e só mesmo as luzes da festa poderão impedir que Cavaco Silva e a classe política o veja, como não verão certamente.

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