Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

UM CHEIRINHO A CARNAVAL

A imagem acima foi retirada do último número do Boletim Municipal da Câmara de Estarreja, que em breve deverá estar  nas caixas de correio dos munícipes e merecia ter sido colocado não na última página mas na capa da mesma. E, se mais não fosse, merecê-lo-ia por ser essa a 3ª referência feita a Canelas nas 48 páginas da revista.
Mas é pelo conteúdo que se lhe fica a dever o destaque e confesso que tive dificuldade em compreender a proveniência de tão garboso elogio:  Canelas - a minha freguesia -  finalmente na sendo do sucesso, teve a honra de  ver publicado um elogio à  Câmara!
Passado um mês sobre uma Assembleia de Freguesia em que tive oportunidade de louvar a atitude do Sr. presidente da Junta pelo facto de este ter feito sentir à Câmara Municipal que Canelas precisa de muito mais, aparece alguém (há sempre alguém) deveras satisfeito com a actuação da Câmara.
Apesar de respeitar a opinião, mesmo que anónima (já me habituei a que são poucos os que neste concelho dão a cara pelo que pensam), jamais poderia concordar tal bajulação, que classifico apenas de ridícula e demonstrativa de um completo alheamento do que se passa ao nível da realização de obras nesta freguesia.
Perguntar-me-ia se o autor do pequeno texto vive, de facto, em Canelas e desafiava o anónimo opinador a fazer uma restrospectiva aos mandatos da Prof. D. Maria de Lurdes Breu e do Dr. Vladimiro Silva no que toca às obras por eles deixados em Canelas, numa altura  de Orçamentos mais apertados e sem quaisquer apoios comunitários.
E lembraria apenas as mais significativas, como por exemplo: os quilómetros de caminhos rasgados no campo e no monte; a construção do dique; o alargamento e alcatroamento da rua da Mata perspectivando a ligação a Albergaria que, apesar de saltitar de PA em PA, esta Câmara não tem arrojo para concluir; a transformação  do Campo da Cruz; o enorme apoio à construção do Pavilhão do Arsenal; o largo Francisco Bingre; o Centro Social; a Sede da Junta; a rede de água; alargamentos diversos e de reconhecida urgência, dos quais saliento as ruas do Espinhal, Bandulha e General Beirão - esta abrindo uma das actuais (poucas)  frentes de construção da freguesia, etc.
Comparativamente, que grandes obras vai deixar em Canelas a era José Eduardo?
- O saneamento, herdado do último mandato de Vladimiro Silva?
- Um ou outro alargamento de menor importância?
- Os percursos Bioria comparticipados pela União Europeia?
- As obras do Esteiro?
- A Estação Viva que afinal, pelo que se ouve, ninguém parece perceber a utilidade?
- A certeza do encerramento da escola?
- O fantasma do encerramento do Posto Médico?
- A intenção - já gasta - da instalação da farmácia?
- Um novo Lar / Centro Social dando resposta à principal carência da freguesia?
- Um PDM não redutor das zonas de construção?
- Uma A29 sem que tenha sacado qualquer contrapartida / investimento para a freguesia?
- Habitação Social  em Canelas?
- O problema do estacionamento no Campo da Cruz resolvido?
- Uma aposta no desenvolvimento agrícola através da projecção da carne de raça marinhoa, por exemplo, e  à semelhança de outros municípios que souberam promover e colocar no mercado produtos característicos das suas regiões?
- Um local onde se possa recolher e preservar o riquíssimo património histórico da freguesia e que vai desaparecendo a olhos vistos?

Para aqueles que têm acompanhado a actividade da Câmara Municipal no que diz respeito à concretização de obras pelas 7 freguesias do  município, e já são alguns,  o comentário do suposto habitante de Canelas é pouco menos que ofensivo. Considerá-lo-ia natural vindo de Avanca, Pardilhó ou Beduído, agora de Canelas?...
Ao seu autor e a outros que porventura o subscrevam, deixo o convite para participarem nas Assembleias de Freguesia, (o local próprio para se debaterem estes temas - é certo que apenas por dois ou três elementos, mas a verdade é que se debatem), e assim tomarem contacto com uma realidade supostamente bem diferente da que aparece espelhada no referido comentário.
Talvez depois de uma ou duas sessões, fiquem a perceber alguma coisa do que aqui se fala.
Para terminar, sugeria (ao autor do comentário) o seguinte exercício: tomar o montante global dos investimentos reais  feitos em Canelas e dividi-lo per capita e fazer o mesmo em relação às outras freguesias. Sei que dá trabalho mas, para facilitar, e por estar ainda fresco,  bastará apenas pegar no ano 2010, embora qualquer outro sirva - mesmo o da campanha eleitoral - e talvez chegue a uma conclusão interessante. Depois, comente de novo.
Ficamos a aguardar.

UM TEXTO DE PEDRO ABRUNHOSA

A contínua hostilização aos professores feita por este, e outros governos, vai acabar por levar cada vez mais pais a recorrer ao privado, mais caro e nem sempre tão bem equipado, mas com uma estabilidade garantida ao nível da conflitualidade laboral. O problema é que esta tendência neo-liberal escamoteada da privatização do bem público, leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre, precisamente, essa conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura, desafectada de interesses particulares, de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter. O trabalho dos professores, desde há muito, vem sendo desacreditado pelas sucessivas tutelas, numa incompreensível espiral de má gestão que levará um dia a que os docentes sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente. (…) O que eu gostaria de dizer é que o meu avô, pai do meu pai, era um modesto, mas, segundo rezam as estórias que cruzam gerações, muito bom professor e, sobretudo, um ser humano dotado de rara paciência e bonomia.
Leccionava na província, nos anos 30 e 40, tarefa que não deveria ser fácil à altura: Salazar nunca considerou a educação uma prioridade e, muito menos, uma mais-valia, fora dos eixo Estoril-Lisboa, pelo que, para pessoas como o meu avô, dar aulas deveria ser algo entre o místico e o militante. Pois nessa altura, em que os poucos alunos caminhavam uma, duas horas, descalços, chovesse ou nevasse, para assistir às aulas na vila mais próxima, em que o material escolar era uma lousa e uma pedaço de giz eternamente gasto, o meu avô retirava-se com toda a turma para o monte onde, entre o tojo e rosmaninho, lhes ensinava a posição dos astros, o movimento da terra, a forma variada das folhas, flores e árvores, a sagacidade da raposa ou a rapidez do lagarto. Tudo isto entrecortado por Camões, Eça e Aquilino. Hoje, chamaríamos a isto ‘aula de campo’. E se as houvesse ainda, não sei a que alínea na avaliação docente corresponderia esta inusitada actividade. O meu avô nunca foi avaliado como deveria. Senão deveria pertencer ao escalão 18 da função pública, o máximo, claro, como aquele senhor Armando Vara que se reformou da CGD e não consta que tivesse tido anos de ‘trabalho de campo’. E o problema é que esta falta de seriedade do estado-novo no reconhecimento daqueles que sustentaram Portugal, é uma história que se repete interminavelmente até que alguém ponha cobro nas urnas a tais abusos de autoridade. Perante José Sócrates somos todos um número: as polícias as multas que passam, os magistrados os processos que aviam, os professores as notas que dão e os alunos que passam. Os critérios de qualidade foram ultrapassados pelas estatísticas que interessa exibir em missas onde o primeiro-ministro debita e o poviléu absorve. (…)
 
Pedro Abrunhosa

segunda-feira, janeiro 24, 2011

OUTRAS CONTAS

Terminou mais uma eleição em Portugal e com o desfecho que era claramente previsível. Alguma admiração poderá vir apenas dos 4,5% de José Coelho, que na Madeira - uma parte do território tradicionalmente laranja e de vincado apoio a Cavaco  - ousou arrecadar 46.347 (menos 5.921 que Cavaco Silva). Esta é, de facto, uma estória dentro da história.
Não sendo o meu candidato, como o não foi nenhum dos que se candidataram, Cavaco Silva venceu com toda a naturalidade, muito por culpa dos fracos adversários que teve. Além disso, a história prova que os eleitores têm preferido sempre a continuidade à mudança no fim do primeiro mandato. Foi assim com Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e agora com Cavaco Silva.
Curiosamente ou não, o eleitorado tem escolhido quase sempre um presidente de cor política diversa do partido do governo, e nem mesmo Sá Carneiro conseguiu a trilogia por que tanto lutou: uma maioria, um governo e um presidente.
Analisando o quadro abaixo, poderá dizer-se que esta vitória de Cavaco traz junto com ela uma sombra que vai cobrindo todo o território e que é um claro e evidente sinal do descrédito que o eleitorado tem na política e nos políticos de hoje.
É óbvio que o mesmo facto político tem sempre leituras diferentes, dependendo de que lado se esteja, mas é inegável que comparativamente a 2006, a percentagem de votantes baixou de 62,6 para 47,53%, o mesmo é dizer que foram muitos mais os que não votaram do que os que se reviram em algum dos 6  candidatos. 
E, se aos 4.478.989 que votaram retirarmos os 191.013 votos brancos e os 86.479 de votos nulos, teremos que apenas 44,58% dos eleitores se dignaram escolher um candidato, o que, em bom rigor significa dizer que a abstenção real se terá situado nos  55,42%.
E esta deveria ser a grande preocupação dos políticos, e uma das primeiras meditações de Cavaco Silva que, afinal não foi eleito pela maioria dos portugueses, uma vez que dos 9.422.835 inscritos, 7.199.702 (76,4% dos inscritos) não votaram ou votaram contra o agora reeleito presidente.
Mas a democracia tem destas coisas, e Cavaco Silva vence por maioria absoluta quando   76,4% da população votante não vota nele (seja por se abster ou por votar noutro). A magia dos números democráticos, permite assim transformar os 23,6% (votos obtidos por Cavaco/total de inscritos), em maioria absoluta!
E esta é a leitura óbvia que qualquer cidadão pode fazer, desde que liberto de preconceitos e partidarismos manietadores, mas é uma leitura  nunca é feita pelos políticos deste país, mais interessados em fazer passar os discursos de vitória ou derrota, do que em ler a "moral da história".
A reflexão que se impõe, após a análise do quadro acima,  deveria procurar dar resposta a diversas questões como por exemplo:
- Qual o motivo porque  entre 2006 e 2011 a percentagem de votos em branco subiu 324%?
- Porque é que entre o mesmo período a abstenção passou de 37,4% para 52,4%?
- Porque é que mais de 4 milhões de votantes se desinteressaram deste acto eleitoral?
Pois bem, as respostas a estas e outras questões, nós cidadãos anónimos, conhecemo-las de cor, mas o que é facto é que não são elas que preocupam os nossos políticos, mais talhados para as artes culinárias em benefício próprio, leia-se tachos,  do que para a verdadeira política, responsável e de serviço do país e do povo.
De facto, os resultados desta eleição são um sinal que ensombra qualquer tentativa de celebração de vitória (bem como os 5 anos do mandato presidencial), e só mesmo as luzes da festa poderão impedir que Cavaco Silva e a classe política o veja, como não verão certamente.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

QUALQUER UM SERVE

Já por aqui mostrei e demonstrei a minha indiferença pelas presidenciais do próximo domingo.
É óbvia a  vitória do actual presidente à primeira volta  por margem significativa. A mim, tendo em conta as funções que lhe estão destinadas tanto me dá que lá esteja um ou outro, uma vez que o que dali se espera -  além dos já habituais discursos de ano novo - pouco mais será do que a representação do país numa série de viagens oficiais, e um ou outro recado ao governo. O grande poder do presidente é mesmo a possibilidade  de dissolver a Assembleia da República -  coisa que acaba por acontecer naturalmente de 4 em 4 anos - a tal "bomba atómica", como lhe chamou ridiculamente Cavaco Silva há dias, o que justifica por completo o medo que o mesmo tem de o usar.
O que verdadeiramente importa é que  esta eleição custará ao país cerca de 9,5 milhões de euros. Tendo em conta este quadro de crise, de redução de salários, corte de regalias sociais, aumento de impostos, aumento do custo da saúde, etc., trata-se de uma (mais uma) monstruosidade e, olhando para trás - o mesmo é dizer, para o papel desempenhado pela presidência da república em quase 37 anos de democracia -  poderá perguntar-se se se justifica o dispêndio de tanto dinheiro de 5 em 5 anos.
Tanto mais que olhando para o que foi a campanha eleitoral que hoje (felizmente) termina, o que vemos?
Apenas discursos vazios de ideias e conteúdos; demagogia de um lado, acusações do outro; respostas que ficaram por dar, ideias que não surgiram e até números de circo com sotaque madeirense ou de saltimbancos em cima de automóveis e carros funerários.  Enfim, dá para tudo! É a triste imagem do  país que temos e até os candidatos ao mais alto cargo da nação alinham nela..
É por isso que qualquer um serve... mesmo o tal da Madeira.
Até nisto a Espanha nos supera pela positiva, e não é por não ter eleições presidenciais que a democracia é menos democracia.


segunda-feira, janeiro 17, 2011

Há quem lhe chame sucesso

Numa altura em que o circo das presidenciais entra já na sua segunda parte, a grande epopeia da semana passada terá sido o "sucesso" do leilão que permitiu enterrar definitivamente o futuro das próximas gerações. Não serão necessários grandes conhecimentos de economia - e o país até tem um presidente licenciado nessa área - para se perceber a loucura cometida. 
Sendo certo que o país vive,  ano após ano ( e já lá vão trinta e tal), a tentar controlar o seu déficit sem que este alguma vez consiga chegar ao zero - o mesmo seria dizer que se conseguiria atingir o equilíbrio entre a despesa e a receita - hipotecar o país em certificados do tesouro inflacionados em 6 ou 7 % é um acto de suicídio que só esta espécie de  governo, que o país pacífica e alegremente atura, transforma em sucesso.
E se dúvidas houverem, vejam-se os artigos de opinião de credenciados economistas, como por exemplo o de Paul Krugman (Prémio Nobel da Economia em 2010). Ler [aqui].
A pergunta é óbvia: um país cuja economia não cresce, onde vai arranjar dinheiro para pagar uma taxa de juro de 6,7 % daqui a 5 ou 10 anos, quando os compradores da dívida quiserem o  seu pilim de volta mais os tais juros? 
Se a pergunta é óbvia, a resposta é também clara: impostos para cima e novos empréstimos - se alguém ou algum país  estiver ainda disposto a emprestar por essa altura.
É certo que daqui a 10 anos este governo já fará parte da história (e da má memória) e é provavelmente isso que o alenta nesta visão estúpida, baseada no princípio de que o que interessa é alinhavar o presente de qualquer forma nem que para isso se hipoteque o futuro, fazendo jus ao ditado de que quem vier atrás que feche a porta.
Regressando às presidenciais, valerá a pena ler o texto que se segue e... pensar antes de votar.

Era oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos.
O pai deixou de lhe pagar os estudos e deserdou-o.
Trabalhou, dando lições de inglês para poder continuar o curso.
Formou-se em Direito.
Foi advogado, professor, escritor, político e deputado.
Foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi reitor da Universidade de Coimbra.
Foi Procurador-Geral da República.

Passou cinquenta anos da sua vida a defender uma sociedade mais justa.
Com 71 anos foi eleito Presidente da República.
Disse na tomada de posse: "Estou aqui para servir o país. Seria incapaz de alguma vez me servir dele..."
Recusou viver no Palácio de Belém, tendo escolhido uma modesta casa anexa a este.
Pagou a renda da residência oficial e todo mobiliário do seu bolso.
Recusou ajudas de custo, prescindiu do dinheiro para transportes, não quis secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado.
Foi aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações, mas fez questão de o pagar também do seu bolso.

Este SENHOR era Manuel de Arriaga e foi o primeiro Presidente da República Portuguesa.

sábado, janeiro 15, 2011

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

A vertiginosa passagem do tempo afasta-nos rapidamente de um  passado ainda recente, tão característico desta zona lagunar beijada pela ria de Aveiro.
Falo, obviamente, da actividade agrícola de uma época em que o acesso aos campos do Baixo Vouga se fazia, quase em exclusivo, através dos Esteiros e das valas, em embarcações de maior ou menor porte, que em grande quantidade povoavam os esteiros e valas da região: as caçadeiras, também conhecidas por rascas e as bateiras. 
Dessas embarcações, guardadas ainda intactas na memória de muitos de nós, apenas restam alguns vagos resquícios -  insuficientes já para  caracterizar a actividade laboriosa a que estiveram intrinsecamente ligadas porque os homens as não  souberam preservar.
Canelas tinha um riquíssimo património neste campo, mas que em poucos anos desapareceu quase por completo. A abertura de caminhos e a proliferação de tractores e máquinas agrícolas ditou o destino das bateiras. Destas, apenas um único exemplar sobreviveu, mas  nem a freguesia nem o concelho o souberam ou quiseram valorizar e preservar. E há-de ser assim com tudo o resto no que diz respeito às artes que por aqui se faziam e cujos instrumentos, alfaias, moldes, projectos, etc., vão desaparecendo... para sempre. Infelizmente, a história também morre quando se apaga da nossa vida.
Hoje deixo aqui um excelente trabalho sobre a Bateira Erveira de Canelas, retirado do blog Marintimidades e que, por certo,  agradará a todos aqueles que se orgulham desse passado atrás citado - que implacavelmente se vai distanciando de nós. Por vezes a internet parece ser a única forma de o perpetuar.
Com o devido e justo agradecimento à autora aqui fica:


quinta-feira, janeiro 13, 2011

O PAÍS EM LEILÃO

A teimosia de querer fazer figura leva a loucuras  [destas].
Este governo, com falinhas mansas, quase sempre escondendo a realidade,  tem conseguido enganar muita gente cá dentro mas não consegue enganar ninguém lá fora.
Por outro lado, o actual presidente da República aparece agora muito preocupado e não se cansa de lançar avisos diariamente. Deveria tê-los feito há meia dúzia de anos atrás pois, segundo ele próprio, nessa altura já teria previsto o que ia agora acontecer. Ao invés, esteve a ver os comboios governos passar. 
O país tem, de facto, um mau governo e um mau presidente da República . E quando assim é, está tudo dito: o mexilhão é que se lixa.


segunda-feira, janeiro 10, 2011

MEMÓRIA DOS TEMPOS

Banda Bingre Canelense - anos 40 do séc. XX
Assim se faz a história de uma das mais antigas instituições do Distrito de Aveiro, a Banda Bingre Canelense, que neste ano celebrará 146 anos de ininterrupta actividade.
Os homens passam,  as instituições ficam, muito embora a eles se deva a devida e justa homenagem, pela persistência que fez com que durante quase um século e meio a Banda Bingre Canelense seja uma referência no panorama das Bandas em Portugal.
Quanto à fotografia, alguns elementos são de fácil reconhecimento; outros nem tanto. Alguém quer contribuir para a sua identificação?

O PAÍS REAL OU...

... A OUTRA FACE DA HIPOCRISIA.

O fato usado do presidente

Três dias antes do Natal, assistia calmamente ao Telejornal da RTP1 quando vi a grande notícia da noite. Entre os atentados em Bagdade e as agências de rating, uma voz off anuncia o que as câmaras filmam: o presidente da maior empresa pública portuguesa a levar dois saquinhos de papel com roupa usada e um brinquedinho (usado) para uns caixotes de cartão, cheios de coisas usadas para oferecer no Natal. Fiquei comovida. Que imagem de boa pessoa, que gesto bonito: pegar num fatinho usado do seu guarda-vestidos que deve ter uns 200 e num pequeno brinquedo de peluche, e depositar tudo no caixote de cartão para posteriormente ser redistribuído? À administração da empresa?
Não, a notícia explica que é para oferecer aos pobrezinhos, que estão a aumentar com a crise. A RTP, Telejornal à hora nobre, filma o comovente gesto. Em off, o locutor explica o sentido dizendo que alguém vai ter no sapatinho um fato de marca. Olhando para os sacos de papel, percebe-se que esse alguém também receberá umas meias usadas e talvez mesmo uma camisa de marca usada.
Primeiro, pensei que estava a dormir e um pesadelo me fizera voltar ao tempo de Salazar, à RTP a preto e branco ou à série da Rita Blanco «Conta-me como foi».

Mas não, eu estava acordada e a ver o presidente da EDP no Telejornal da RTP 1 (podem ver o filme na net) posar sorridente para as câmaras, a levar um saquinho a um caixote, que não era de lixo, mas de oferta.
Por acaso, estava à porta da EDP a RTP a filmar o gesto. Iam a passar e filmaram, certamente, porque para os pobres os fatos em segunda mão de marca assentam como uma luva. Um velhinho num lar de Vila Real vestido Rosa & Teixeira sempre é outra coisa. Ou o homeless na sopa dos pobres com Boss faz outra figura, ou o desempregado com Armani numa entrevista do fundo de desemprego... Mentalidade herdada do Estado Novo, foi a minha primeira análise, teorizando imediatamente que os ricos em Portugal, os que recebem prémios de milhões em empresas públicas e ordenados escandalosos e que puseram o mundo e o país como se vê, são os mesmos com a mesma mentalidade salazarenta.
Mas nem é verdade, pois, mesmo nesse tempo, as senhoras do regime organizavam enxovais novos nas aulas de lavores do meu liceu para dar no Natal aos pobres que iam nascer.
Tantos assessores de imprensa na EDP, tantos assessores na Fundação EDP, milhões de euros gastos em geniais campanhas de marketing, tantas cabeças inteligentes diariamente pagas para vender a imagem do presidente da EDP, tudo pago a preço de ouro, e não concebem nada melhor do que mandar (!?) filmar, no espaço do Telejornal mais importante do país, um gesto indigno, triste, lamentável, que envergonha quem vê. Não têm vergonha? Não coraram? E a RTP que critérios usa no Telejornal para incluir uma notícia?
Há uns meses escrevi ao presidente da EDP e telefonei-lhe mesmo, a pedir ajuda da empresa para reparar a velha instalação eléctrica, gasta pelo uso e pelo tempo, de uma instituição, onde vivem 40 adultas cegas e com deficiências e que têm um dos mais ricos patrimónios culturais do país. A instituição recebeu meses depois a resposta: a Fundação EDP esclarecia que esse pedido não se enquadrava nas suas atribuições. Agora percebi. Pedia-se fios eléctricos, quadros eléctricos novos e lâmpadas novas. Devia-se ter escrito ao senhor presidente da maior empresa (pública) portuguesa, com os maiores prémios de desempenho, cujo vencimento é superior ao do presidente dos Estados Unidos, para que oferecesse uma lâmpada em segunda mão, que ainda acendesse e desse alguma luz. Talvez assim mandasse um dos seus motoristas, com um dos geniais assessores de imprensa e um dos fantásticos directores de marketing, avisar a RTP (a quem pagamos uma taxa na factura da luz) para virem filmar a entrega da lâmpada num saquinho de papel.
2011 anuncia-se um ano duro para os portugueses e sê-lo-á tanto mais quanto os responsáveis pelo estado a que se chegou não saírem da nossa frente.

 Zita Seabra

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Quem quiser tirar um quarto de hora para ouvir este homem, não dará por mal empregue o seu tempo. É certamente melhor do que assistir aos debates televisivos dos candidatos à presidência da república, pela seriedade, verdade e análise simples e directa.

pRESIDENCIAIS

Estamos a cerca de 15 dias de mais uma eleição presidencial. Devo dizer que esta eleição - tal como a anterior - não me fará gastar a tinta da esferográfica que deverá estar disponível aos eleitores na câmara de voto.
Contudo, mesmo sem interesse, é impossível não dar conta de que os principais temas a dominar esta Pré-campanha eleitoral são o espelho da miserabilidade de ideias e projectos. 
Discutir publicamente e a toda a voz a compra / venda das  acções do BPN  pelo actual presidente da república, ou o texto que Manuel Alegre terá escrito em 2005 usado como publicidade pelo BPP, demonstra claramente a falta de respeito  que os candidatos e quem os apoia nestas rábulas (comunicação social incluida) têm pelo país. Ninguém parece esperar outra coisa senão este entretenimento anedótico.
Cavaco Silva vai gastar na sua campanha 2 milhões e cento e vinte mil euros, Manuel Alegre 1 milhão cento e quarenta mil euros e os restantes, todos juntos, 1 milhão novecentos e oitenta e dois mil seiscentos e sessenta euros... tudo isto saído dos cofres do Estado. Ora, o mínimo que se lhes poderia exigir era um pouco de respeito, já que vergonha é coisa que não têm.
Em tempo de crise, está claro que quem maior responsabilidade, contenção e rigor deveria apresentar, é quem mais se diverte com o dinheiro dos contribuintes, sendo certo que enquanto o país se entretém com as tais rábulas, nem é preciso que os senhores candidatos se preocupem com a apresentação ou debate de ideias para o futuro. Bem, também que é que isso interessa?

ESTADO de sítio

Muitos de nós já nos teremos perguntado porque é que o Estado nos pesa tanto, ou porque é que  a sua despesa  aumenta a cada mês/ano.
O jornal DN inicia hoje a publicação dos resultados de uma investigação que vale a pena acompanhar. Como aperitivo, em cima da mesa fica a notícia da existência de 13.740 organismos públicos a sugar o dinheiro dos contribuintes. 
Os gastos com a função pública, os custos das derrapagens financeiras das obras públicas, os tachos dos ex-ministros, quanto custam as reformas dos políticos, as entidades que fogem à fiscalização e o que escondem as Parcerias Público-Privadas (PPP), são os pratos que se seguem.
A lista dos Institutos Públicos [aqui].
A lista das Fundações [aqui].
Mapa-resumo das Entidades sugadoras de dinheiros públicos [aqui].