Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

domingo, novembro 08, 2009

DIRECTO AO ASSUNTO

Portugal tem vindo a tornar-se num exímio produtor de longas metragens de qualidade superior, e os portugueses assistem na plateia serenamente ao desenrolar da acção. Na sua maior parte, os actores são principescamente pagos pelo Estado que se assume também como principal realizador.
Faltará apenas os Óscares para que "Camarate", "Casa Pia", "Apito Dourado", "Fátima & Felgueiras", "Freeport", "Isaltino & Cª", "Os Submarinos", "Operação Furacão", "Onde param os milhões da CEE?", "Assalto ao BPN", "Aconteceu no BPP", "A Face Oculta", etc., tenham o reconhecimento internacional devido.
Habituado que está o povo, a ser ciclicamente entretido pela cinematografia contemporânea, pouco importa que em nenhum dos filmes apareça a palavra "FIM", até porque, normalmente, a meio de um se inicia a rodagem de outro.
E é este o triste fado de um país e da sociedade que o compõe. Um país onde o crime compensa, e de que maneira!
Poucos se importarão actualmente com o clima de impunidade que se vai instalando, tal a sua normalidade e aceitação por parte da sociedade de um país que vai perdendo a identidade. Um país que aceita naturalmente ser governado por gente que se envolve nas mais sórdidas negociatas. Um país que pune os que o desgovernam com os melhores cargos nas empresas públicas. Um país que não pede responsabilidade a quem é responsável pelo desastre das contas públicas. Um país que não se interessa pela reposição dos milhões do erário público que engrossam contas particulares. Um país que distribui computadores ao preço da chuva, mesmo a quem aufere rendimentos brutais. Um país que subsidia a construção de 10 estádios de futebol e assiste à derrocada financeira dos clubes. Um país onde uns andam 12 anos a estudar para ter o 12º ano e outros o tiram em dois ou três anos. Um país que gasta milhões numa ligação de alta velocidade entre Lisboa e o Porto, cujo resultado prático se traduz na redução do tempo de viagem em alguns minutos apenas. Um país que protege os bandidos e pune os cidadãos normalmente cumpridores. Um país que suga, literalmente, a sua classe média. Um país que não larga quem lhe deve 10 Euros mas fecha os olhos aos que devem ou desviam milhões. Um país que pune os professores sempre que estes, por necessidade, imponham respeito nas salas de aula.
No fundo, Portugal é hoje um país apático, amorfo e descaracterizado, tomado de assalto por uma classe política impreparada e doentia que, na sua maioria, apenas tem contribuído para o seu afundamento socio-económico. Mas o que mais dói, é que o fazem legítima , devida e sucessivamente mandatados.

5 comentários:

pelintra disse...

Boas.

Concordo completamente com o texto.

É mais fácil perguntar, o que é que funciona isento de corrupção.
Mas não teríamos muito que escrever. Nem teríamos muitos leitores.
Quase, quase nada funciona sem corrupção, apesar da dita palavra englobar uma amálgama de sinónimos e de derivados que vão dar ao mesmo.
Em todas as profissões, comunidades, instituições, culturas, áreas, existem esses comportamentos "errados" em que teimamos em apontá-los únicamente quando envolvem os outros. Díariamente esbarramos com esse hábito. É no tirar a carta-de-condução, é no ingresso numa empresa, é numa inscrição para um lar, é para um concurso na função pública, é para concursos de fornecimento, é para concursos de empreitada ou serviços e na educação (ainda), é na religião, enfim...
As pessoas já nem comentam, quando existe este tipo de atropelos.
Preferem aguçar o engenho, porque a necessidade o obriga ou porque acham que «à terra onde fores ter, faz o que vires fazer».
Isto já faz parte do nosso ADN, desde o Neandertaler.

Saudações

Conde de Canelas disse...

Concordo integralmente com o conteúdo do artigo, apesar de não compreender como é que alguém que pensa assim tenha concorrido por um partido liderado por um mestre/padrinho da corrupção...

aisongamonga disse...

Concordo plenamente. Pouco existe para acrescentar.
Talvez dizer que tudo isto está já tão marcado no ADN que muitos pensam preferível escolher quem rouba mas mostra algum trabalho a dar o beneficio da duvida e arriscar a ser roubado e ponto. Só assim consigo justificar beneplácitos eleitorais como os de Oeiras e Gondomar.

CR disse...

Caro Conde,
Gostaria de dizer em primeiro lugar, que haverá em todos os partidos gente que merece credibilidade. Talvez pouca, mas há.
Depois, o enquadramento das eleições autárquicas é, para mim, completamente distinto da política nacional muito embora também nesse filme se vejam impunes situações - e muitas - de corrupção.
O facto de ter concorrido às eleições autárquicas suportado por um partido teve apenas e tão só a ver com o apoio encontrado para levar por diante um projecto próprio para a freguesia, sabendo-se de antemão que a partir do dia 12 de Outubro esta terra contaria apenas com a capacidade de trabalho dos eleitos e com o apoio ou não da Câmara Municipal, numa lógica de completa independência partidária. Independência essa que há alguns anos e particularmente no presente me prezo de ter.
O meu contributo de cidadania termina nas fronteiras da minha terra.
Cpts.

Duque de Canelas disse...

Ninguém deveria estar acima da Lei. Se os Portugueses podem ser incriminados judicialmente por escutas, o Primeiro-Ministro se for apanhado em flagrante também deveria ser julgado por isso... Até poderia estar inocente, mas considerar nulas escutas por um dos interlocutores ser o Primeiro-Ministro faz-nos ver que esta democracia está inquinada! Em Itália, Berlusconi vai ser julgado pelos crimes de que é suspeito... em Portugal o poder judicial é controlado pelo governo e os militantes socialistas têm um cartão que diz: "Você está livre de cadeia!"