Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

sexta-feira, março 13, 2009

Vive este país

da ilusória esperança de que um dia a coisa melhora ou, pelo menos, não vai piorar.
Poucos são que terão a noção verdadeira da realidade e muito menos os que com ela parecem preocupar-se. Da entrevista retratada no post abaixo, salienta-se o quadro seguinte:

Trata-se da evolução da economia portuguesa nos últimos 110 anos.
Não dispondo dos dados que fundamentaram a elaboração do gráfico parece-me, no entanto, que o mesmo é merecedor de credibilidade. E assim sendo, estou certo que para muitos é incomodativo constatar que o período áureo de todo o século passado se situou nos anos 60 e 70. Talvez para esses pouco importe que o início da queda do império se tenha verificado logo a seguir, o que também é elucidativo e sintomático da incompetência dos sucessivos governos, ditos democráticos, que mais não fizeram que desbaratar o vasto erário público que herdaram do Estado Novo.
E esta é a verdade que tem de ser dita sem falsos moralismos.
Quando se fala de Salazar há toda uma espécie de gente que fica incomodada, o que demonstra alguma ignorância, imaturidade e incapacidade de separar as águas. Pois bem, a mim não me causa qualquer fastio falar desse período ambíguo da história de Portugal. E é necessário que se fale nele porque existiu e, como tal e à semelhança de outros períodos mais ou menos felizes, é bom que se não esqueça.
Não pretendo fazer qualquer apologia do salazarismo até porque, por princípio, abomino qualquer regime ditatorial em que a prepotência leva a excessos ignóbeis que deambulam como fantasmas por muitos períodos da história universal.
O que me causa engulhos é constatar que na sociedade portuguesa, os menos tolerantes para com o regime imposto por Salazar, preconizam regime semelhante, embora virado à esquerda. São esses mesmos que condenam Hitler mas batem palmas a Stalin; repudiam Mussulini mas revêm-se na doutrina de Lenine; excomungam Franco mas prestam vassalagem a Mao Tse Tung etc,.
Seria importante também, medir a distância que separa um regime ditatorial de uma governação assente numa maioria absoluta como a que governa Portugal actualmente. Tomando por base esse período entre 1933 e 1974, parece-me que não será muita, ou não faz o governo o que bem quer mesmo que um sector inteiro, ou vários, da sociedade se manifestem em desacordo?

Não exerce o poder de uma forma autoritária e prepotente, mesmo que diversas vezes chamado à razão pelo Presidente da República? Dir-se-á que este tem, em último caso, o poder de dissolver o parlamento, ou que passados 4 anos há novo acto eleitoral. E serão essas, porventura, as diferenças.
Seria interessante comparar o Portugal dos anos 50-70 com este do século XXI.
- Foi um período de sacrifício para os Portugueses; e agora não é?
- Havia fome; e agora não há? As notícias de que cada vez mais famílias não conseguem pagar os bens essenciais como a luz, a água, a renda da casa, etc., entram-nos pela casa dentro todos os dias.
- Não havia liberdade de expressão; e agora? Não se levou a tribunal um autor de um blog pelo que escreveu? Não se mandou apreender um livro porque tinha uma imagem de uma mulher nua na capa? E a brincadeira de Carnaval com o Magalhães, não ia dando para o torto? E a pressão sobre determinados órgãos de informação, não existe? E as escutas a tudo e todos?
- Não havia estradas, auto-estradas IP’s, IC’s, etc. Passou-se do 8 para o 80. São auto-estradas por tudo quanto é sítio, umas em cima das outras, irrompendo por reservas agrícolas ou ecológicas, deitando casas abaixo, separando povoações, etc,.
- Aqui pelas aldeias, saía-se de casa e deixava-se a porta no trinco; e agora? Pode fazer-se?
- Nas escolas aprendia-se a sério História, Português e Contas; hoje entende-se que é mais importante saber “virar” o Magalhães do avesso mesmo que se não consiga saber quanto é 9x5; importa introduzir o Inglês no primeiro ciclo, mesmo que se dêem dezenas de erros de Português;
- Os professores eram respeitados (a bem ou a mal); hoje, podem ser gozados, enxovalhados, desautorizados e… processados se ousarem levantar um dedo que seja contra a má educação de um aluno;
- A correr bem, eram necessários 4 anos de primária mais 7 no Ciclo e Secundária para se obter o tão desejado 7º ano; hoje, à sombra das Novas Oportunidades, em dois anos produzem-se milhares de 12ºs anos. Chamaria a isto a ilusão do conhecimento ou a oficialização da ignorância.
- Um curso superior marcava a diferença, era motivo de orgulho e sinal seguro de emprego; hoje, 4 ou 5 anos de Universidade dão direito a estar em casa ou numa caixa de supermercado.
Liberdade e Democracia será ver os assaltantes, homicidas, desordeiros saírem impunes de julgamento? Ou os que roubam aos milhões e a justiça não pune?
Liberdade e Democracia será proteger cada vez mais os ricos e sugar os pobres até mais não? Ou dar Rendimentos mínimos a quem nada faz e pensões de miséria a quem levou uma vida a trabalhar?
Onde estão aplicados os milhões que têm vindo de Bruxelas? Entre 2007 e 2013 virão mais cerca de 21 mil milhões. Quem fiscaliza a sua aplicação? Quem diz onde são ou vão ser aplicados? Que evolução tem tido o país, que competitividade alcançou?
Olhando para o gráfico acima, estaremos por esta altura no mesmo nível de há 100 anos. Proeza esta alcançada em cerca de 30 anos de desnorte político delapidando a sólida economia conseguida até aos anos 70 com esforço, rigor e honestidade.
“Quando sair do governo poderão virar-me os bolsos do avesso que nada encontrarão”. Quantos poderão dizer isso hoje?

Acima se definiu o tempo do Estado Novo como um período ambíguo da história do país. Essa ambiguidade provém do facto de que importa saber separar a governação política da governação económica. E, se quanto à primeira poucos prazenteiramente a recordarão, quanto à segunda, não há dúvida alguma de que o país se ergueu sobremaneira a partir da década de 40, numa altura em que a conjuntura internacional era igualmente desfavorável.
Houve coisas más, obviamente. E muitas. É impossível não recordar os excessos, a Guerra colonial, as torturas da Pide, etc. Mas hoje os excessos continuam, a guerra faz-se nas ruas das cidades, vilas e aldeias e a fome, a falta de emprego, a insegurança e a miséria são outras formas de tortura.
Portugal seria bem diferente se os políticos da era democrática, ao invés de espezinhar esses 40 anos de história, deles soubessem tirar partido.
Em 74 havia todos os ingredientes necessários para colocar o país no mesmo nível de qualquer outro país europeu. Tudo foi desaproveitado e vive-se hoje uma falsa democracia num país economicamente miserável, onde grassa a corrupção, onde o fisco não perdoa 10 ou 15 euros a um qualquer cidadão anónimo mas que, com toda a naturalidade, aceita a fuga de milhões, onde o governo não tem dinheiro para pagar reformas condignas a milhares de idosos mas tem-no aos milhões para dar a banqueiros, gestores e empresários que levam empresas à falência, mas cujas contas bancárias são uma monstruosidade, onde a insegurança aumenta de dia para dia, onde ninguém responsabiliza ninguém por uma gestão ruinosa de um Ministério, de uma Câmara ou de uma empresa pública, onde qualquer obra acaba por custar 4, 5, 10 ou 20 vezes mais do que o orçamento previsto sem que ninguém explique e seja chamado a responder por isso, onde a lei é implacável com um cidadão habitualmente cumpridor e fecha os olhos a quase toda a espécie de criminosos, onde se permite que um corrupto seja presidente de Câmara, dirigente desportivo, membro do governo, etc.
Estará na altura de o país acordar, olhar para estes 35 anos de democracia e exigir uma classe política séria, honesta e capaz, que não se governe a si própria, que responda pelos seus actos e que por eles seja julgada.

Há muito que me apetecia escrever isto.

2 comentários:

Anónimo disse...

Depois de ler isto, apeteceu-me fazer um comentário, não me quero alongar, até porque o post está tão bem feito, que nada mais há para acrescentar. As referências que fez ao "antes" e ao "agora", são partilhadas por muitas muitas pessoas, que se sentem cansadas com a actual situação, e com
a passividade dos nossos governantes perante tudo isto, que quer que lue diga... nada, nada mais há para dizer.
1 abraço

Pedrasnuas disse...

Eu partilho de tudo o que escreveste aqui!!!Isto é uma obra prima.
O anónimo tinha razão!
Muitos Parabéns!!!!

E um Abraço merecido.