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quarta-feira, novembro 19, 2008

AS BATEIRAS

Longe vão os tempos em que, do largo da Balsa, a vista se perdia no horizonte atravessando todo o espaço dos campos do Baixo Vouga.
A agricultura, o principal meio de subsistência de então, passava muito por ali e fazia com que toda essa área tivesse uma pujante vida.
Nesses tempos, os caminhos eram valas e esteiros, por onde deslizavam suavemente barcos, bateiras e caçadeiras, ou rascas - nome por que também eram conhecidas estas embarcações mais pequenas.
Eram feitas aqui. Lembro-me do Beirão, do César e do "tio" Arnaldo - o barqueiro - exímios profissionais dessa arte.
No fim da escola, nos dias grandes do verão, ali passávamos o tempo admirando a facilidade com que talhavam a madeira, e acompanhando a gestação das embarcações que iam tomando forma, ali, debaixo dos nossos olhos.
O inconfundível cheiro a piche, que ainda hoje se nos apega à memória, sentia-se ao longe e era sinal de acabamento de mais uma obra.
O piche ou breu, revestia toda a embarcação e, ao mesmo tempo que contibuia para a sua impermeabilização, vestia-a de negro. Umas aplicações de casca de arroz, aqui e ali, sobretudo na zona da proa, conferiam-lhe o embelezamento final.
Nos finais da década de 70 do século passado, o rasgar de caminhos permitiu o acesso aos terrenos por terra firme e fez declinar a importância das bateiras, que até então povoavam as valas.
O junco e a erva seca passou a ser transportado em carros de bois e, posteriormente, em tractores, enquanto a apanha do moliço diminuia de intensidade. Ao mesmo tempo, a pesca, sobretudo a da enguia, entrava também em declínio, finando-se assim a utilidade prática destas embarcações que, abandonadas às intempéries, foram desaparecendo uma atrás da outra, e com elas uma parte importante da história, património e memória deste povo.
Das bateiras, o único exemplar que existe permanece no museu de Ílhavo, longe do concelho, da terra natal e das valas e esteiros por onde navegou. Não fora isso e ter-se-ia também já perdido. Não tendo sido a opção desejável foi, contudo, a melhor, para que possa ser conservada.

Há meia dúzia de anos o Agrupamento de escuteiros da freguesia fez, em boa hora, o que deveria ter sido feito pelos "nossos" autarcas e conseguiu a posse do exemplar que as fotos documentam.
Com a ajuda e sabedoria de quem nasceu na arte, procederam recentemente à sua restauração restituíndo-lhe, assim, a originalidade e "saúde" para que possa permanecer entre nós em perfeitas condições.
A tarefa da sua conservação não é fácil e terá os seus custos, mas o desafio valerá a pena com toda a certeza. Graças a eles, aos escuteiros, ainda é possível evocar o passado rebuscando na memória tantas estórias fascinantes e imagens que o tempo vai esfumando.

3 comentários:

Fermelanidades de Matos disse...

A bateira dos escuteiros é a mesma que esteve meio ano afundada no esteiro ao largo da estação? Bem, pelo menos foi bom para a madeira que ficou "inchada" quanto baste e com o volume necessário à navegação.

Escuteirinho disse...

Já tenho saudades de andar de bateira e em especial esta, para qual eu contribui com muito trabalho e muitas noites de serão. Foi um desafio e continua a ser conservar e preservar esta bateira. O clã do agrp nº530 continua esse desafio e merece todo o apoio os meus parabéns. Há um historial desta bateira que é muito interessante era bom publicar.

Parabéns pelo esforço e dedicação.


Ps: Quanto a ela de vez em quanto estar afundada nem sempre há tempo para tudo, infelizmente mas o património é de todos. E concerteza que uma oferta de ajuda aos escuteiros não vai ser negada.

Fermelanidades de Matos disse...

Sempre que posso lá estou.

abç