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sexta-feira, agosto 15, 2008

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

Ano de 1878.(*)
Cannellas de Gaia (7,47 km2) era habitada por 1285 almas; Cannellas de Arouca (20,89 km2), por 483, enquanto nos 11,86 km2 de Cannellas de Penafiel viviam 802 e aqui, na de Estarreja, hoje com 10,15 km2, estavam fixados 1400 habitantes.

Hoje, em Canelas de Gaia habitam 12.303 cidadãos, em Canelas de Arouca, 864, enquanto a freguesia homónima do concelho de Penafiel regista 1780 moradores e Canelas de Estarreja 1486. Parece óbvia a diferença. Tão óbvia que faz pensar nos motivos subjacentes à estagnação.
Vemos assim que Gaia multiplicou por 10 o número dos seus habitantes enquanto Penafiel e Arouca o duplicaram nestes cerca de 130 anos. Aqui, em Canelas de Estarreja, permanecem os mesmos de sempre.

Se pensarmos na excelente localização, acessos e vias de comunicação, comuns a esta faixa do Litoral (uma das mais desenvolvidas do país), fica sem justificação aparente o porquê desta estagnação, alicerçada na falta de investimentos e projectos de que o Poder Local se não pode alhear ou desresponsabilizar.
A descentralização do poder e serviços, que tem vindo a acontecer sobretudo na última década e meia, escancarou as portas do progresso a muitas aldeias e vilas do país, onde a visão e o sentido de oportunidade não foram desperdiçados.
Pois é isso que se exige a quem aceita (quero crer que com vontade própria), o exercício de qualquer cargo público e, muito em particular, neste domínio da Política Local.
Às Câmaras e Assembleias Municipais, a par das Juntas e Assembleias de Freguesia, têm a responsabilidade de, durante os seus mandatos, cumprirem com as funções para que são mandatados e estas vão muito além da gestão passiva do espaço concelhio ou local. Com isto não pretendo afirmar que se não faz nada, mas sim que se não tem feito nada que faça a diferença e que "empurre" o concelho e esta freguesia para o caminho do progresso e desenvolvimento. E isso parece-me ser uma aspiração legítima de todos, muito embora sejam poucos os que parecem preocupar-se com estas coisas.
A realização de obras de embelezamento e patrocinadoras do lazer é, sem dúvida, importante, mas só depois de efectuadas outras de primeira necessidade e de utilidade mais abrangente. E o que falta no concelho e nesta freguesia, é isso mesmo: a definição de um critério segundo o qual se dê primazia às obras prioritárias, sem nunca perder de vista qualquer oportunidade que possa vir a ser o polo dinamizador destas pequenas comunidades.
Circunscrever a actividade de um mandato à beneficiação de dois ou três arruamentos, ao tratamento de igual número de placas ajardinadas e à limpeza de valetas é, no mínimo, desolador e demonstrativo da falta de interesse e de ambição que se não vê tanto por outros lados. E é custoso constatar que, de todas as freguesias homónimas de Canelas, embora em situação geográfica de eleição, apenas esta, de Estarreja, terá parado no tempo.

(*) Fontes: Dicionário Corográfico do Reino de Portugal, Coimbra, 1878 e Censos de 2001. Não foram encontrados dados relativos à freguesia de Canelas, Peso da Régua para a verificação da evolução populacional.

1 comentário:

PR disse...

OLá Camilo!
De facto no último parágrafo tocas no busílis da questão: falta de interesse e ambição!
Actualmente não resido em Canelas, por força da minha actividade profissional, mas é com muito gosto que regresso a casa sempre que me é possível. Mas também é com muita pena minha que quando volto, tenho a sensação de que está cada vez mais tudo na mesma!
Não se compreende como as gentes parece que pararam no tempo... Vive-se por viver, bebe-se uns copos nos cafés e fazem-se umas tainadas, porque é disso que o povo gosta, só que a malta cansa-se e quando menos se espera os mais jovens voam para outros cantos.
Soluções? Mais cultura de verdade, sem interesses de apadrinhamento, intercâmbios sem receio do desconhecido, sem medo de aprender com os outros, afinal somos um povo de descobrimentos...
Abraço,
Pedro Rego