Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

sexta-feira, julho 04, 2008

Continuam na ordem do dia

as peripécias em torno da construção da linha da AV. Fala-se agora de uma possível ligação entre a, também possível, estação de Albergaria, a plataforma de Cacia e o Porto de Aveiro, ligação essa a passar algures entre as freguesias de Canelas e Salreu.
Desde o início que alimentei a ideia de que, um dia, alguém - leia-se, algum governo - tivesse a coragem de reconhecer que construir uma nova ligação entre Lisboa e o Porto, é um tremendo erro.
Bastaria a constatação dos resultados práticos - a redução de cerca de meia hora na viagem que cobre a maior distância - para conscientemente se mudar de rumo. Mas, se tal não bastasse, o custo da obra face à situação económica do país, seria justificação mais que suficiente para a tomada de uma decisão séria que conduzisse ao abandono desse projecto.
Tolera-se a construção de uma ligação directa a Espanha; mais que isso será entrar numa eufórica corrida, de consequências económicas imprevisíveis.
Mas, uma vez que quem decide assim o quer, de pouco adiantará gritar aos ouvidos dessa gente que padece de surdez crónica.
Centrando a questão na tal ligação entre Albergaria - Cacia - Aveiro e, contrariamente a algumas opiniões que vão surgindo, não me parece que a argumentação de que a freguesia vai ficar "entrincheirada", sirva de alguma coisa. Todos sabemos que é uma falsa questão a pretensão de crescimento físico da freguesia, que pacíficamente vive com a A29 a nascente, e a actual linha do caminho de ferro a poente . Restam os limites naturais a norte e a sul, pelo que tudo o que possa ser implantado nesses limites não trará o "encolhimento" físico do território.
Não passa por aí então a discussão. Passará sim pelo impacto ambiental e pelo enquadramento físico da obra, bem como todos os incómodos e alterações à vida de quem por aqui habita, sempre tendo em conta a perspectiva da não necessidade da sua construção.
Não tenho qualquer dúvida de que os proprietários, chamados a ceder os seus terrenos, verão aí mais uma oportunidade de valorização instantânea dos mesmos, muitos deles votados ao abandono - basta lembrar as recentes e pacíficas negociações para a construção da A29.
Parece-me óbvio então que, em função da determinação da sua construção, o estudo da RAVE aponte para um dos locais que menor impacto trará, a que não será alheio o facto de estarmos a falar da freguesia mais pequena do concelho.

Se perguntarem se quero o TGV aqui, digo claramente que não! Reconheço, no entanto, que iniciar uma luta pelo recuo do governo, é pura perda de tempo. Caberia sim à Assembleia da República apresentar, atempadamente, argumentação suficiente e fundamentada para provocar o recuo perante o abismo e defender assim os interesses do país e dos portugueses.
Não tendo sido essa a realidade, não me parece que valha a pena lutar contra fantasmas, pelo que deveria pensar-se em aproveitar este momento para dar o tal salto em direcção a um acentuado desenvolvimento desta zona do concelho.
Nesta altura, a minha verdadeira preocupação vai nesse sentido: a falta de um qualquer projecto que possa fazer regredir esta letargia que se abate sobre a freguesia.
Canelas tem na sua história secular, uma inevitável ligação ao amanho da terra. Mas, basta levantar um pouco o olhar para perceber que, gradualmente, a mesma terra que outrora oferecia o linho, o trigo, o milho, o feijão, o centeio e o arroz, vai ficando abandonada aqui e ali. Há alguns anos chegou a falar-se em projectos de emparcelamento de parte dos terrenos agrícolas a nascente e dos campos do Baixo Vouga, por forma a valorizar e rentabilizar a agricultura, mas tudo não passou de uma miragem. Parte desses terrenos estão hoje a maninho, mas insiste-se em embuti-los na Reserva Agrícola Nacional quando se lhes poderia dar outra utilização e outra projecção no futuro. E é isto que estrangula e asfixia a freguesia, mais do que a passagem do TGV entre Canelas e Salreu.
Não existindo nem se prevendo uma redefinição da política agrícola para esta zona, restar-nos-ia a criação de espaços infra-estruturados e passíveis de construção aproveitando o privilégio de por aqui passarem algumas das principais vias de comunicação do país, como a EN 109, a A1, a A29, o Caminho de Ferro e, futuramente o TGV, bem como a proximidade às zonas Industriais de Albergaria, Estarreja e Aveiro. E é isso que Canelas tem para oferecer: excelentes zonas para construção de moradias onde coabitam o sossego e uma beleza natural de referência mas que, poque integradas na RAN, produzem actualmente silvas e lenha.
Resumindo: não gostaria de ver a linha de AV nem aqui nem a ligar Lisboa ao Porto mas, dada a inevitabilidade mais que certa da sua construção, haveria que conceder-se a esta zona novos horizontes. Afinal, aquando da construção da A29, da A1, das linhas de Alta tensão, das condutas do gás e da água públicas e agora da linha de AV, fez-se vista grossa sobre os hectares de solo da RAN e REN que foram destruídos, pelo que se exigia igual procedimento a respeito de outras áreas que nada produzem actualmente.

2 comentários:

noticiasd'aldeia disse...

Caro Camilo,

Canelas ficará definitivamente, cercada. A nascente, poente e norte. É claro que os limites da freguesia não se alterarão. O que se altera é a paisagem e qualquer hipótese de crescimento urbanístico entre Salreu e Canelas.

A questão da valorização instantânea dos terrenos afectados pela via-férrea, é uma ilusão. Os mesmos terrenos, poderiam valer 6 a 10 vezes mais se classificados como viáveis de construção. E fica ainda uma segunda questão, que é a desvalorização que afectará toda, digo toda, a propriedade desta freguesia devido ao isolamento irreversível a que ficará condenada.

Eu acredito que vale a pena lutar. Estamos já demasiado retalhados para permitirmos mais um retalho. A CME tem o dever e obrigação de nos apoiar, enquanto que a assembleia e junta de freguesia não podem ser simplesmente contra. Têm de dizer não à construção desta nova via.

Volto a lembrar, a propósito do abandono dos terrenos, que a terra é dos poucos bens que se não podem reproduzir. Há pouca e não cresce. Tornar-se-á um bem muito valioso. Demasiado valioso para se entregar a 7 ou 8 euros o metro quadrado.

Abraço.

Anónimo disse...

Caro Camilo Rego
A sua análise demonstra uma enorme lucidez, quer quanto às guerras que valem a pena ser travadas, bem como quanto à análise custo benefício, dos projectos em análise; na verdade consegue analizar a realidade sem Demagogias nem Quixotismos deslocados no espaço e no tempo. É verdadade que cada um pode chamar a si as dores que quiser e de quem quiser, mas é fundamental que nunca perca o sentido da Realidade, sob pena de se descredibilizar. E já que falamos de Realidade (com RIGOR), há um príncipio da Lei da Procura e da Oferta,(que rege o nosso mercado), que é; um Bem ou Produto não vale aquilo que nós queremos, mas tão só o que Alguém estiver disposto a pagar por Ele; assim sendo e simplesmente por minha curiosidade, gostaria de saber onde é que no CAMPO ou MATAS de Canelas se venderam Lotes de 500m2, por 8.000 contos antigos, ou 40 000,00 € modernos, ou seja a 80,00 € o m2?.
Cumprimentos do Pipo.