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domingo, março 09, 2008

UMA TARDE FRIA

Cerca de três centenas de pessoas estiveram hoje presentes na Praça Francisco Barbosa, em Estarreja, para manifestar o seu descontentamento pela determinação do governo em fechar o Serviço de Urgências do Hospital Visconde de Salreu.
Três centenas de inconformados, num universo de cerca de 28300 habitantes do concelho, faz pensar se vale a pena dar a cara por qualquer causa pública.
É certo que a ideia predominante é de que agora já é tarde pois esta como outras acções de protesto deveriam acontecer antes da decisão do governo e da assinatura de qualquer protocolo, o qual não será mais do que um pequeno balão de oxigénio no futuro que se adivinha moribundo do HVS.
E é pena que o sentimento seja esse pois o baixar dos braços é o princípio da derrota. É certo que se não exigia a presença dos 28000 cidadãos, nem de 15000 ou mesmo de 10000, mas 4 ou 5000 seria talvez um número razoável. E, se tivermos em conta que há populações de concelhos e freguesias vizinhas neste mesmo barco, e talvez mesmo em situação mais difícil do que os habitantes do concelho de Estarreja, não seria de espantar que a Praça Francisco Barbosa fosse pequena demais.
Este habitual acomodamento dos cidadãos perante as grandes questões - e esta é sem dúvida uma grande questão para o futuro do concelho - é preocupante.
Começa a sentir-se que se aceita tudo de braços abertos, mesmo quando isso tenha as piores implicações no futuro da população. E perdem-se assim batalhas importantes. Perdeu-se a questão do IC1 que se tinha conseguido voltar a favor do interesse do concelho; está em vias de se perder esta, das Urgências, e sabe-se lá o que nos espera o futuro.
Dizia-se lá, a este respeito que "as pessoas ficam em casa porque ainda não sentiram na pele o que isto vai dar".
E é bem verdade. Sabe-se que Santa Maria da Feira e Aveiro são incapazes de dar resposta às situações que irão acontecer após o encerramento das urgências do HVS. E esta é que é a grande questão que se tenta camuflar com o cumprimento duvidoso de um protocolo que alguém entende ser vantajoso para nós.
Pois é importante que se diga que uma coisa são as melhorias previstas no tal protocolo e outra, bem distinta, é o facto de às 2, ou três horas da madrugada, não termos quem nos acuda numa situação de urgência. Ou seja: nenhum protocolo substitui o serviço de urgências.
Não me parece que o SNS não consiga suportar o vencimento de um ou dois médicos durante a noite no HVS. A vida terá sempre um preço muito mais alto, mas a que este governo parece completamente insensível.
A pouco e pouco, estaremos a regredir ao tempo dos nossos avós: nascia-se em casa e em casa se morria. Ou então passaremos a nascer na rua e a morrer nela, a caminho de uma maternidade ou de um serviço de urgência cada vez mais distantes.
Não será isto um assunto sério demais para que acordemos todos desta letargia hipnótica que parece ter tomado conta de nós?


2 comentários:

Pedro Javier Mazzoni disse...

Boa noite,

O concelho de Anadia tem mais de 30000 habitantes e no entanto não conseguiu juntar mais de duas centenas de manifestantes no seu protesto contra o encerramento das urgências.

CR disse...

Olá Pedro.
É este alheamento das populações dos assuntos que mais lhes dizem respeito , que perigosamente vai hipotecando o futuro de todos nós.

Cumprimentos.