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sexta-feira, janeiro 04, 2008

SERÁ NECESSÁRIO FAZER UM DESENHO?

Esta coisa do Plano de Actividades e Orçamento da CME para 2008, tem dado muito que falar - e ainda bem - porque estes documentos, pela importância que têm para as freguesias, deveriam ser discutidos publicamente e, acima de tudo, terem uma execução muito próxima dos 100%, o que está muito longe de acontecer. Pena é que a discussão aconteça depois de tudo estar consumado. No entanto, vale sempre a pena a discussão, quando ela mesma é séria, mas isso só é possível quando se parte de pressupostos sérios. Pena é que uns se percam a discutir o sexo dos anjos, rebuscando argumentos que mais não servem do que para enlamear cada vez mais o caminho em que se meteram. Sim, porque a realidade é nua e crua e não há argumentos que a escondam. As palavras doces não disfarçam a frieza dos números.

1- ÉTICA - Tecer aqui considerações - essencialmente pejorativas - acerca de pessoas que por aqui não passam, denota uma falta de ética com a qual me não identifico. Falei aqui da atitude do Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Canelas, só depois de com ele ter trocado ideias numa, ainda que breve, análise ao Plano de Actividades e Orçamento da CME para o corrente ano.
A forma como se está a querer "crucificar" o Presidente da Junta de Freguesia de Canelas porque, pelo menos uma vez, ousou enfrentar aqueles que lhe/nos estendem os carris, é demasiado baixa - ignóbil mesmo - mas quero deixar claro que, sempre que esteja em causa a defesa dos interesses desta terra e dos seus habitantes, estarei na primeira linha com ele - como cidadão anónimo e como presidente da Assembleia de Freguesia, porque fui eleito, como aqui diz o Zé Cláudio, pelas listas do PSD/CDS, embora como independente. E isso dá-me inclusivamente mais direito e legitimidade para mostrar o meu descontentamento, que tem já uma coloração a indignação.
Já por aqui referi também que, antes de mais, penso por mim e não sirvo para transmitir recados de quem quer que seja. Não tenho que obedecer a qualquer doentia disciplina partidária, nem almejo ou me reconheço com qualquer capacidade para enveredar por uma tranquilizante e compensadora carreira política. Procurarei chegar ao fim deste 2º mandato, se tiver condições para tal, sem me desviar do objectivo com que me apresentei aos eleitores: procurar cumprir com isenção e rigor o papel que me for (foi) confiado, sempre com a finalidade de zelar pelos interesses dos Canelenses.

2 - CORRIDA - Espanta-me que a questão do Plano de Actividades e Orçamento da CME, esteja aqui a colocar-se como uma espécie de corrida entre Canelas e Fermelã, como se esta última fosse a grande vencedora. E acabo por dar comigo a lamentar esta pobreza de espírito... ou talvez, este desespero de causa, como se a realidade dos nossos vizinhos Ferrmelanenses se afigurasse como diferente; como se por lá os 364,37 euros que se prevêem investir per capita, resolvessem algum dos problemas estruturais dessas gentes.
Devo dizer aqui que não vejo o diferencial entre ambas as freguesias, inscrito no Orçamento/2008 como qualquer vitória, e muito menos pessoal, do Presidente da Junta de Freguesia de Fermelã - com todo o respeito e admiração que por ele tenho - nem me parece bem querer transformá-lo num doutorado da política, por forma a que possa dar cursos de como se rapam mais uns euros ao Orçamento da Câmara. O problema deste, como de outros Orçamentos não passa por aí, senão teríamos o assunto resolvido. Bastaria que o amigo Sílvio se dispusesse a dar os tais cursos - de como se rapam mais uns cobres do Orçamento Geral do Estado - aos senhores Presidentes das Câmaras, que tanto se queixam dos cortes...
Espero conseguir dizer no ponto seguinte onde, no meu simples entendimento, se situa o verdadeiro problema.

3- DESIGUALDADES - Esta coisa do "Investimento per capita" que o Zé Matos gosta de analisar, vem mesmo a calhar.
Tal como tenho referido, a freguesia de Canelas continua fora dos planos dos investimentos da CME. O amigo Zé , com a responsabilidade que tem nestes assuntos, e que de quando em vez faz questão de lembrar, acaba por confirmar isso mesmo, infelizmente. E digo infelizmente, porque gostaria de ver comprovado o contrário do que tenho dito, a bem desta freguesia e do povo que a habita.
Dos 92,63 euros de investimento, per capita, previstos para Veiros, aos 369,68 previstos para Avanca... vai efectivamente uma diferença abismal. Na análise que o Zé faz acerca deste assunto, acaba por dizer que ninguém estará disposto a abdicar da sua fatia em proveito dos outros. Pois... mas esta é apenas mais uma forma de colocar a questão da maneira que ela se não põe. É, como diz o povo na sua sabedoria milenar, querer tapar o sol com a peneira.
Parece-me que a responsabilidade é de quem divide o bolo, ou não?
A questão é que, ao contrário do que tantas vezes se apregoa, as freguesias e os cidadãos do concelho são tratados de uma forma desigual, e isso está bem reflectido no quadro que o Zé Matos tomou por base para a sua análise, e que serviu para ele próprio se vangloriar pelo facto de Fermelã ser a 3ª freguesia com maior investimento per capita.
E aqui, devo dizer ao Zé que não comungamos das mesmas ideias, pois eu envergonhar-me-ia se tivesse qualquer responsabilidade nos números que ali estão.

4- JUSTIÇA Parece-me óbvia a diferença entre ambos os quadros. O primeiro denota uma repartição do Orçamento com as desigualdades que o caracterizam, enquanto o segundo - mais bonito e a cores - mostra o que poderia ser o mesmo Orçamento, numa perspectiva justa e equilibrada onde todos os munícipes, ou se quisermos, todas as freguesias, são tratados em pé de igualdade. Mas, claro, isto é a minha perspectiva, sem objectivos eleitoralistas ou outros que não o de servir a população do concelho. E, se assim fosse, nada haveria a dizer. Far-se-ia em cada freguesia o que possível fosse com as verbas disponíveis.
Voltando a olhar para o primeiro quadro, verifica-se que se vão fazer obras numas freguesias com o dinheiro das outras e a isto chamo eu, muito claramente, um roubo!

CONCLUSÃO - De nada adiantam as comparações com o passado. Bem sabemos que isso faz parte dos discursos vazios dos políticos de hoje, quando não têm a coragem de assumir os actos que praticam - basta assistirmos a uma qualquer sessão da Assembleia da República para darmos connosco próprios a pensar que a culpa de tudo isto é, afinal, do Afonso Henriques.
De nada adianta, também, culpabilizar o partido A ou B - não são os partidos que fazem ou deixam obra, são as pessoas. Essa é, aliás, a forma mais fácil e imediata de desresponsabilizar os culpados pelo estado de coisas em que está o país. E depois, já não se consegue perceber muito bem se são os partidos que escolhem as pessoas ou se são as pessoas que se servem dos partidos para chegarem onde pretendem.
De nada adianta, ainda, tentar encontrar justificações esfarrapadas para as injustiças orçamentais do concelho, nem atirar a responsabilidade destas para o exterior. É à Câmara que compete a distribuição do "bolo", bem como a obrigação de o fazer de uma forma o mais justa possível.
A seriedade é um valor que me foi transmitido, que cultivo e espero poder manter até ao fim dos meus dias. A seriedade para comigo, para com a sociedade em que me insiro e muito particularmente para com as gentes da minha terra, enquanto no exercício de um cargo paro o qual fui eleito.
Não pretendo, de forma alguma, voltar a trazer aqui este assunto porque me parece que nada mais de importante há a acrescentar, e começam a avistar-se argumentos que nada têm a ver com o mesmo, e que só servem para empobrecer a discussão, tornando-a numa infantil lavagem de roupa suja. Apenas quero dizer que a realidade aqui traçada e que me parece de uma clara evidência, é vivida na primeira pessoa e isso, por vezes, faz a diferença.
Quanto às taxas de execuções orçamentais que, o Zé aqui fala no seu ponto nº 5, apenas um comentário: ninguém espera que elas se situem nos 100%, mas aqui, nesta freguesia, em termos de obras realizadas, o zero fica muito, mas muito mais próximo que o 100.
Deixemo-nos de demagogias baratas e enfrentemos a realidade que está à vista de todos. E, se dúvidas houverem, deixo um desafio: passem os olhos pelos Boletins Informativos da CME (Município de Estarreja) e encontrem lá as referências às obras realizadas em Canelas. A questão é que Canelas não tem qualquer peso eleitoral. Há que não ter medo de o dizer e de o assumir!
Por aqui me fico, com o respeito que todos me merecem, mas entristece-me que alguém se possa sentir satisfeito com este estado de coisas, traduzidas em desigualdades, injustiças e desrespeito generalizado, apregoando uma vitória que não existe mas, a existir, seria à custa do empobrecimento dos outros. Serão, provavelmente, formas de estar na vida com as quais me não identifico.
Uma última nota para sublinhar, uma vez mais, o meu total apoio ao Presidente da Junta de Freguesia de Canelas pela sua intervenção a respeito deste assunto, que só peca por tardia.

5 comentários:

ms disse...

É evidente que nos sentimos injustiçados,poucas são as vozes que se levantam a nosso favor,por isso Camilo não se cale,a sua frontalidade é coisa rara no meio político assim como a dignidade.CPTS

Anónimo disse...

Notável, é assim que classifico a clareza e a seriedade do seu post. Os defensores do orçamento tal como está deviam sentir vergonha por defenderem tal aberração, mas infelizmente sabemos o que eles almejam, um lugarzinho ao sol à sombra da árvore das patacas.

Conde da Carvalha disse...

O que é mais espantoso nisto tudo é que o presidente da junta de Veiros tenha votado a favor deste orçamento. Qual será a noção desse senhor do interesse da sua freguesia? Ou será que a subserviência ao partido e a esperança de um lugarzinho no futuro é muito mais importante que os cidadãos de Veiros? Difícil de entender...

Anónimo disse...

É mesmo difícil de entender certas coisas.cpts

Falcão Peregrino disse...

A nossa sociedade e particularmente a nossa intelligentzia política vive hoje repugnantemente curvada à ditadura das conveniências e ao chamado politicamente correcto ou seja, à mais vil das hipocrisias. A sua tomada de posição é uma pedrada no charco que é este orçamento. Honra lhe seja feita.