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segunda-feira, dezembro 10, 2007

CARTA EDUCATIVA - 3

Quando aqui trouxe o assunto da Carta Educativa do concelho de Estarreja, fi-lo após a leitura das suas longas 136 páginas, onde se faz a caracterização do concelho, sob uma perspectiva que visa justificar a decisão de encerrar as escolas de Canelas, Fermelã e Veiros. E, por mim, o assunto estaria já encerrado não fosse o caso de o amogo , insistir e embirrar comigo acerca deste assunto.
Respeito a sua maneira de ver, entender e opinar sobre a matéria, mas tenho de reafirmar que não concordo.
À clarividencia que o Zé Matos diz ter acerca do que deve ser uma escola moderna (com salas bem equipadas, com um ginásio, com espaço polivalente coberto, com uma sala para professores e outra para recepção dos pais, com cantina, e instalações sanitárias adequadas), eu acrescentaria que uma escola moderna deve ter os professores colocados a tempo e horas, deve ter o pessoal auxiliar necessário e igualmente colocado no início do ano escolar, deve ter um calendário de actividades extra-curriculares adequado, deve ter monitores suficientes para as mesmas actividades, deve estar o mais próximo da área de residência dos alunos, deve ter a menor variação possível entre as faixas etárias, deve oferecer as melhores condições de segurança, deve estabelecer claramente as regras de respeito entre alunos e professores e vice-versa e, sobretudo, deve estar ao serviço da população. Assim sendo, tudo seria diferente.
A escola de Canelas, como a maioria das escolas do concelho, foi alvo de substanciais melhorias há bem pouco tempo.
As salas foras pintadas; as madeiras das janelas e portas foram substituídas por alumínio; a luminosidade aumentou grandemente devido à superfície vidrada que é agora maior; a vedação foi totalmente substituída; a instalação eléctrica idem; os quartos de banho reparados; as paredes exteriores pintadas e em todas as salas instalados aparelhos de aquecimento. A escola tem uma cantina onde são servidas diáriamente as refeições e está a ser construída uma nova sala e um quarto de banho para crianças com alguma deficiência física. A área atrás da escola, presentemente sem qualquer utilização, poderia ser reaproveitada para construção de uma cozinha de apoio à cantina e para a construção de mais duas ou três salas (as tais para os professores e pais). A insistente obsessão pelo ginásio é também uma falsa questão que só pode ser colocada por quem não conhece a realidade.
O pavilhão e todo o complexo desportivo do Arsenal colmatam perfeitamente essa lacuna, tal como foi anteriormente feito. Tudo passa pelo diálogo e pelo ajustamente de horários, uma vez que se sabe que é depois das 18h00 que o Pavilhão está ocupado.
Como vê o amigo Zé, não tenho qualquer solução mágica, nem ela é necesária, pois considero a escola de Canelas, suficientemente moderna para desempenhar, e bem, o papel que lhe está destinado, oferecendo aos alunos condições muito satisfatórias. Mas, devo dizer-lhe ainda que, a ser necessário deitá-la abaixo para construir uma nova, continuo a acreditar que é aqui, junto da população mais nova, mais frágil, que ela é necessária. Deslocalizar crianças de 6 anos e misturá-los com jovens de 16, faz-me lembrar os países do terceiro mundo, mas esses, infelizmente não têm recursos para mais. Nós, têmo-los e teríamos mais ainda, não fossem os mesmos desaproveitados e mal geridos por gente cujo principal objectivo é tratar da sua vidinha...
Quanto à questão da perda da população, o Zé não percebeu ou não quis perceber o que eu referi no post, acabando por misturar tudo, numa tentativa de dizer o que eu não disse.
Pois bem, Canelas e Fermelã têm perdido população por um ou dois factos muito simples e que estão à vista de toda a gente: o desinvestimento constante e sistemático e o malfadado PDM, completamente desenquadrado da realidade do concelho e cuja revisão nunca mais vê a luz do dia. Plano esse que, durante anos a fio, empurrou para fora daqui novos agregados familiares, ao negar-lhe a possibilidade de construção das suas habitações. Esta é a verdade nua e crua. Não é a escola que leva as pessoas embora destas freguesias - o seu encerramento poderá contribuir para isso - mas é sobretudo a falta de ambição e o desinteresse por parte de quem promete tudo mudar e depois... a montanha acaba sempre por parir um rato.
Deve o amigo Zé Matos saber que, pelo facto de pertencer a um órgão autárquico deliberativo, tal não me coibe de dizer o que penso e de querer mais para a minha terra. Aliás, tal facto exerce em mim o dever de reclamar quando o tiver de fazer e de mostrar satisfação sempre que para tal haja motivo. Infelizmente, os motivos de satisfação são tão raros e tão distantes no tempo!...
Entristece-me o facto de ver encerrar as infraestruturas básicas de uma freguesia, em nome de uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, para depois ver o mesmo dinheiro - que não há para melhorar ou manter as escolas de Canelas e Fermelã - ser literalmente queimado em banalidades socio-culturalmente deploráveis. Será necessário citar meia dúzia de exemplos?
Entristece-me ainda que a tal Carta Educativa - que vem encerrar a escola de Fermelã - tenha sido criada em Fermelã e seja tão defendida por um Fermelanense. Terão as suas razões, provavelmente. Mas não queiram que concorde com elas.

2 comentários:

ms disse...

Comcordo plenamente consigo,trabalho na educação e conheço esta realidade por dentro,podia aqui alongar-me mas o seu post é bastante elucidativo.
bem haja cpts

noticiasd'aldeia disse...

O que me parece mais espantoso nesta – e noutras – questão, é a passividade com que, tanto o poder local como a população, aceitam o permanente desenvestimento público na sua (nossa) terra. Talvez por andar distraído, e exceptuando o seu e meu caso, ainda não vi uma só alminha, levantar a voz perante uma decisão que me parece, gravemente atentória e particularmente lesiva do futuro de Canelas e dos reais interesses da população.

Por aqui, investe-se no cemitério e no alindamento da fachada do edifício da junta. O resto, fica no deserto da inconsciência colectiva.

Cpts