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quarta-feira, novembro 21, 2007

A ÁGUA DO OLHINHO

"A gente da Aldeia, Entrevinhas e Picoto está presentemente sem água, porque secaram os seus poços e em qualquer desses lugares não há fontenário ou chafariz onde o público possa ir abastecer-se do indispensável líquido.
Isto acontece todos os anos nesta época e esta gente vê-se em sérios apuros para obter água para os gastos domésticos.
Há muito que os interessados vêm clamando pela construção de um fontenário no cruzamento da rua da Aldeia com a de Entrevinhas, para onde se captasse a água do Olhinho, manancial inesgotável que se situa a cerca de 600 metros, mas os serviços da Câmara Municipal consideraram o empreendimento inviável, porque o seu custo seria elevado e a quantidade da água pesquisada, em quantidade mínima, não justificando o investimentoa fazer.
Apertados pela necessidade, os povos dos referidos lugares voltaram a insistir na pretensão e ofereceram comparticipação financeira e todo o serviço braçal necessário, pelo que o dito corpo administrativo resolveu mandar proceder a novo estudo no sentido de ver o que é possível fazer-se em ordem a atender tamanha necessidade.
Fazem-se votos por que se encontre uma solução satisfatória, mesmo à custa de sacrifícios, pois todos sabemos a falta que a água faz numa casa de família. É uma das primeiras necessidades, sem dúvida."
23-11-1958

Há 49 anos, esta era uma preocupação das gentes de Canelas. O fontanário acabou por ser construído, não deixando de ser curioso o facto de que a oferta da "comparticipação financeira e de todo o serviço braçal", foi o motor para a realização de novo estudo...
Afinal, o problema da feitura da obra não estaria na quantidade de água pesquisada, como referia o primeiro estudo, mas na falta de vontade política para que a mesma se tornasse realidade. Ontem, como hoje, na política, se pretende com papas e bolos enganar os tolos!
Pelo fontanário referido, passaram ao longo dos anos, milhões de litros de água. A água fresca saída da bica foi, durante muitos anos, uma bênção para o povo que ali refrescava os rostos suados e as gargantas sequiosas. A pia, construída por baixo, armazenava água para matar a sede aos bois que ali paravam, uns atrás dos outros, num ritual que já se não vê.
Passados quase 50 anos, a fonte secou. Não por falta da água, mas porque uma qualquer máquina destruiu a conduta, já lá vão mais de 7 meses!
É certo que hoje a quase totalidade das casas são servidas por água da rede pública, mas o desprezo pela água do Olhinho que deixou de correr nas fontes, é o desprezo pelo esforço de um povo que um dia arregaçou as mangas e ousou contrariar quem o quis matar à sede.

1 comentário:

noticiasd'aldeia disse...

Essa estória da máquina que quebrou a conduta do Olhinho é mais uma das que vão preenchendo as infantilidades com que se vão distraindo as gentes.

Como é óbvio, não serão tantas as máquinas que possam ter estado no local da ruptura para que o responsável não seja de imediato identificado e responsabilizado. Parece que a questão se prende mais com a intenção de obrigar as pessoas ao consumo de água da rede, a tal que me custa 4 € de substância e 16 de impostos.

Para um bem essencial como é o caso, o conforto de o ter em casa à distância de um giro de torneira é tão grande que, apenas quem não tem condições para tal, a não tem nessa condições.

Mas, ainda assim, é um direito do povo que, se não por outro motivo pela utilização continuada e nunca contestada desde há muitos anos, lhe assiste. O direito de ter acesso gratuito à água que, de qualquer forma se perde porque não existe qualquer plano ou equipamento de reserva, escorrendo por valetas e riachos.

Como tantos outros nesta terra, é assunto para se arrastar eternamente ou, até que esqueça.