Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

sexta-feira, setembro 14, 2007

O NOVO ANO ESCOLAR

Anunciado com pompa e circunstância um pouco por todo o país, como jé hábito, um novo ano escolar vai começando, uma vez mais diria, aos solavancos. Este ano, mais 900 escolas ficarão de portas fechadas ao ensino. No passado ano, foram 1500 as que foram despojadas de alunos. Aqui perto, a do Rochico entrou este ano para o engrossamento desse triste ranking. E a Escola do Rochico tinha condições que fariam inveja a muitas pelo país fora! Daqui a dois anos diz-se que, em nome de uma tal "Carta Educativa", também as crianças de Canelas e Fermelã passarão a ser imigrantes. Nessa altura, todo o sul do concelho ficará despojado de um dos seus equipamentos básicos. Só os iluminados destas paragens conseguem perceber porquê. A quase totalidade dos edifícios escolares foi alvo de significativas beneficiações nos últimos anos. Ficaram assim criadas boas condições - em muitos casos, óptimas condições - para a prática do ensino e, de repente, começa-se a fechar as escolas!
Será mesmo em nome do equilíbrio das contas públicas??? Então mas o dinheiro a ser gasto na construção de uma nova escola em Salreu não dará para suportar as despesas de manutenção das escolas que se prevêem fechar? E porquê em Salreu, cujos alunos estão mais perto de Estarreja?
A asfixia das populações mais pequenas toma corpo de dia para dia.


Atente-se nos mapas abaixo e facilmente se depreende o caminho a que está votada a Educação em Portugal.
Ou seja: neste triste país com uma taxa de abandono escolar na ordem dos 40%, o caminho escolhido tem sido o do contínuo desinvestimento do Estado e das autarquias na Educação.


E, como se tal não bastasse ainda, mais uma vez , muitas escolas vão abrir sem que nelas tenha sido colocado o pessoal auxiliar necessário. Mas o importante é mesmo distribuir-se computadores a 150€ e abrir o ano escolar em solenes e pomposas sessões.


O papel do ensino mudou muito desde que nós, os que estamos agora na casa dos trinta, quarenta e, mais ainda, cinquenta anos, deixámos a escola.

No lugar dos Jardins de Infância havia naqueles tempos uma figura incontornável que nos ensinava as primeiras letras: as Mestras.

Com elas aprendíamos a ler e a escrever e também a "cantar" a tabuada em coro.

Lembro-me da minha. Chamava-se D. Ermelinda e morava ali no Cabeço de Cima, numa casa que ainda hoje lá existe e onde havia também um ferreiro: o ti Elias. Quando a D. Ermelinda nos deixava, comer o pãozito da merenda, íamos até perto dele e, de bocas abertas, o pão esquecido na mãozita, ficávamos fascinados com aqueles ferros em brasa que tirava da forja para a seguir martelar com um pesado malho que empunhava com a maior das facilidades.

As tardes eram intermináveis naquele tempo!

Na penumbra de uma cozinha, onde as telhas deixavam entrar aqui e ali alguns finos raios de sol, e ao som do malho do ti Elias, aprendíamos a desenhar as letras do alfabeto. Primeiramente nas lousas pretas, em que o irritante sibilar dos lápis de pedra se fazia ouvir... e, só muito depois, nos cadernos de duas linhas.

Nem todos estes anos que passaram me fizeram esquecer aquele cheiro característico do cuspo na ardósia - a forma usada para apagar a escrita.

E, quando as coisas não corriam como a D. Ermelinda queria, os nós de uma cana da índia com cerca de metro e meio, estalavam nas nossas cabeças. Esse pequeno mas feroz objecto valeu-lhe o nome de que nunca mais se livrara: cana verde.

Nesse tempo quando chegávamos à escola, a tabuada era dita de trás para a frente, da frente para trás e salteada. Hoje sem uma máquina de calcular grande parte dos alunos universitários não é capaz de fazer uma conta sequer. Dizem que não é preciso.

O ensino mudou também no que diz respeito aos manuais escolares. Nesse tempo um livro de leitura e um de problemas eram tidos como suficientes para a formação até à 4ª classe, e os mesmos davam para 10 ou mais anos. Dois, três ou quatro irmãos de idades diferentes podiam estudar pelos mesmos livros, que não raras vezes eram ainda emprestados a crianças mais novas ou de menos posses. Hoje, um aluno da terceira classe carrega na mochila mais de 10 Kg de livros e cadernos não servindo os mesmos para mais de um ano escolar, chegando mesmo estes a serem diferentes de escola para escola! Privilegia-se o comércio em detrimento de uma educação racional e sóbria. São os nossos tempos modernos!

7 comentários:

Poeta de Fermelã disse...

Nem mais...

Anónimo disse...

É sempre bom recordar o tempo em que nós fomos estudantes,confesso até que senti uma enorme nostalgia.
CPTS

alguem disse...

Estou a tentar encaixar a baixíssima taxa-de-natalidade no quadro negro que acima descreve.

noticiasd'aldeia disse...

Pois é Camilo, também “andei” na Ti Ermelinda. Resultado, quando entrei na escola, aquele lindo edifício que irresponsavelmente foi desmantelado para se construir a obra incontornável da arquitectura parolo/saloia que é o posto médico, passaram-me para a segunda classe após uma semana.

Actualmente, o ensino não passa de mais uma área de negócio – cada vez de maior importância – onde os pais enterram importantes “cabedais”, o estado menos investe, e os alunos menos aprendem.

Conscientemente, digamos que a culpa não cabe aos governantes, nem ao ministro, nem aos professores ou aos alunos. A culpa inteirinha cabe-nos a nós, cidadãos que à idade adulta, maioritariamente, deveríamos ter consciência e sentido de responsabilidade para mudar o que está mal.

Cpts

alcidesrego disse...

Obrigado Camilo, por trazeres aqui à lembrança a "minha" mestra, Ti Ermelinda, bem como o Ti Elias e o carvão negro da forja que combinava com a cor das ardósias que partiam pelo caminho para a mestra.
Tempos em que todo o caminho era espaço de brincadeira e como tal muito nosso, sem a preocupação do trânsito.
Para além do carro do Sr. Dr. Albino, tudo o mais eram carros de bois.
Recordo ainda as corridas com os barcos que fazíamos com as cascas dos pinheiros e que deslizavam com grande velocidade na água das valetas.
Coisas de infância...

Camilo Rego disse...

Abel:
É verdade. Ao fim de oito dias, também passei para a segunda classe. É que as Mestras,mesmo sem qualquer curso superior, além de tomarem conta de nós enquanto os pais andavam nas lides duras do campo, sabiam perfeitamente incutir-nos o saber necessário para enfrentarmos a escola sem receios.
Quanto ao edifício... nem vale a pena falar. Seria hoje o mais emblemático da freguesia. Aqui ao lqdo, em Salreu, há bem pouco tempo, se recuperou, e bem, um dos seus edifícios mais queridos: a Escola das Laceiras, homenageando todos os que por lá passaram. Por aqui...

Ao Alcides:
Nem mais!
Eram as corridas de barcos que fazíamos com cascas grossas de pinheiro, alguns com vela e tudo; eram as "motas" em que transformávamos as cepas das videiras; eram as descidas pelas encostas dos montes sentados em grossas cascas de eucalipto; era aquele jogo em que desenhávamos no chão de terra batida dois triângulos e com uma "cavilha" íamos espetanto e riscando até cercarmos as ditas figuras; era o jogo com as tampas das garrafas de refrigerantes a que chamávamos (não sei porquê) nunus ou nununs, etc., etc...
Do nada se inventava tudo.

Abraço.
Grandes tempos!

Estrela Cadente disse...

Ao ler este seu "Novo Ano Escolar" pareceu-me voltar a tr�s no tempo. A sua descri�o adapta-se perfeitamente ao que se passou comigo. Ent�o a tabuada dita de tr�s para a frente e de frente para tr�s fez-me dar uma gargalhada.
Hoje os miudos usam m�quinas de calcular.
Os tempos mudam, para melhor?...
Para pior?...
Os portugueses t�m falta de forma�o.
Hoje n�o � necess�rio saber esvrever portugu�s, os computadores corrigem, n�o � necess�rio saber tabuada, as calculadoras sabem, os computadores sabem.
E viva o progresso com pouco ou nenhum trabalho.