Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

domingo, janeiro 21, 2007

ACORDÃOS DO CONCELHO DA BEMPOSTA


Acabo de reler um pequeno livro intitulado "ACORDÃOS DO CONCELHO DA BEMPOSTA" escrito sob a pena de Bartolomeu Fonseca e Rego - meu tio.


E é pelo prazer transmitido pela sua leitura, que aqui o trago ainda que de uma forma ligeira. Simplesmente magnífico pela forma da escrita e pelo rigor que apresenta, fruto, sem dúvida, de muitas e aturadas horas de pesquisa, bem como pela viagem que nos proporciona pelos tempos d'outrora.

Não se limitando à transcrição fiel do texto original dos Acordãos, através de uma descrição objectiva e singular, leva-nos a perceber o seu enquadramento histórico desde os primórdios da Nacionalidade, altura em que aparecem as primeiras referências à Terra de Figueiredo, até ao ano de1852, data da publicação do documento.





Dos ACORDÃOS DO CONCELHO DA BEMPOSTA fazem parte 73 artigos divididos por 7 Capítulos. Devido à extensão do documento, cuja leitura aconselho vivamente, apenas aqui darei conta de alguns excertos que espero agucem o apetite aos amantes destas coisas...


Capítulo 1º

Art.1º
Os mordomos das Confrarias de cada huma das freguesias do Concelho, á excepção das de Loureiro e Ul, que, contravindo á sua antiguissima obrigação, deixem de concorrer à Igreja Matris do Pinheiro da Bemposta, á hora designada pela Camara para aProcissão de Corpus Christi, pagarãocada um por cada falta a mulcta de 500 rs.

Art. 2º
Os moradores das ruas por onde passar esta Procissão devem n'esse acto, tê-las na sua frente juncadas de cheiros, e os proprietarios ou caseiros dos predios rusticos confinantes com as mesmas ruas terão os seus intestes bem aparados, e as videiras de vinho bem levantadas e erguidas, sob pena de 500 rs. por cada contravenção.
... / ...
Artº 6º
Todo o Chefe de fôgo que deixar d'hir, ou mandar pessoa capáz ás Procições denominadas - Ladainhas de Maio na forma do costume antiquissimo, pagará por cada falta a mulcta de 1500 rs.
... /...
Artº 7º
Não hé licito lançar animais mortos á rua, caminhos, rios ou outros lugares publicos, nem mesmo conserva-los em predios particulares, mas devem desde logo ser enterrados coma profundidade necessaria longe de povoado para evitar a corrupção do ar e o prejuizo da saude pública, quem o contrario fizer encorrerá na pena de 500 rs. por cada animal grande e 240 rs. pelo gato, e qualquer outro animal piqueno.
... / ...
Artº 14º
Ninguem poderá ter oculos de mina, fossos, cobas para tirar barro, ou areia, ou quaisquer outros boracos, seja qual for o seu fim, na Estrada Rial, caminhos publicos, ou perto d'elles sem estarem cobertos e tapados com tal segurança, que cesse todo o receio de poder cahir n'elles gente, ou algum outro animal, sob pena de pagar hum até 3000 rs. de mulcta, segundo a gravidade da contravenção e de ser tudo entulhado á sua custa se desde logo o não fizer.
... / ...
Artº 26º
Hé prohibido aos vendeiros vender vinho, ou outros liquidos por cópos, ou púcaros de barro; e somente depois de medido por medidas afferidas, o poderão passar a estes vazos, sob a pena de 240 rs. por cada contravenção.
... / ...
Artº 49º
Hé prohibido despejar para as ruas da povoação, ourinas, agoas çujas e quais quer immundices, quem o contrário fizer pagará a multa de 120 rs.
... / ...
Art 61º
Quem em qualquer tempo do anno pozer fogo, ou votar queimas em matos, ou baldios publicos, ou em pinhais, e propriedades alheias, além da reparação do damno, incorrerá na pena de 4 ate 6000 rs., segundo a gravidade do cazo.
... / ...

Artº 66º

Todo o chefe de caza hé obrigado á presentar em cada anno, no dia, e sitio, que a Camara designar 20 cabeças de passaros damninhos, dés de pardais, e outras d'es gaio, melro e pega, sob pena de 50 rs. por cada cabeça em falta.



Nota final: Haverá certamente muitos documentos históricos esquecidos e, porventura, maltratados, em escuras gavetas ou escabelos envelhecidos. São verdadeiras preciosidades que nos permitem conhecer profundamente a vida e hábitos das gerações anteriores e que têm um valor incalculável. Importa preservá-los e dá-los a conhecer.




segunda-feira, janeiro 15, 2007

QUINTA DE SANTO ANTÓNIO

Canellas, Fermelaã
Fazenda da quinta de Canellas
Consta a dita quinta de huma capela de Sancto António, de casas, adegas, lagares, palheiros, curraes, eira, dous moinhos,, pumares, vinhas, devezas, ortas e terras lavradias, e agoas, que toda estaa circuitada de muros de parede, e as propriedades que estao dentro da dita Quinta de muros adentro sao as seguintes.

Hum campo chamado da Boca, semeadura de sesenta alqueires pouco mais ou menos.

Hum cháo chamado cháo do Rio, semeadura de cinco alqueires.

A vinha da Porta que leva de cava doze homens.

A vinha da Costa que leva de cava vinte e cinco homens.

A vinha da Costeira que leva de cava doze homens.

Fazendas de Fora dos muros

Hum pedaço de vinha pegado a dita quinta que foi de Manoel Dias Mourao, que leva de cava hum homem.

Hum chao chamado da Nugueira que esta murado em partes, e circuitado sobre si, que leva de semeadura quinze alqueires.

Huma vinha no Ameal toda cercada de muro, cavadura de quarenta homens.

Chao do Ameal que he Campo que da milho, feijao e outros legumes, semeadura de oitenta alqueires.

Chao do Brejo com umas devesas de castanho e outras arvores e mattos, todo cercado de valos, semeadura de 50 alqueires.

Huma terra no pino da Bouça com umas toucas de castanho no fim della junto ao rio, semeadura de hum alqueire.

Estao estas fazendas lansadas no tombo orginal a P. 28 (?) 34.



sexta-feira, janeiro 12, 2007

A 29

"A construção a nascente da A 29, antigo IC1, prevê a demolição de quatro habitações. (...)
As habitações de Beduído, situadas no lugar que dá o nome à freguesia, contemplam o derrube de duas moradias, uma das quais ocupada por dois idosos de 74 e 72 anos. "

In "O Jornal de Estarreja" de 12 de Janeiro de 2007

Para os mais distraídos, importa dizer que a história do IC1 tem já doze anos. Projectado e apresentado pelo governo de Cavaco Silva, então a poente da linha do caminho de ferro, logo as associações tidas como ambientalistas vieram a terreiro gritar que se estava a por em causa o eco-sistema da zona do Baixo Vouga Lagunar.
E vai daí, queixa apresentada em Bruxelas, pois então!
Novo governo, novos projectos - a nascente para que não se incomodassem as cegonhas e afins.
Surgem então duas novas alternativas sendo uma delas a escassas dezenas de metros a nascente da via férrea e que, a ser concretizada, irrompia casas adentro, dividindo a freguesia de uma forma bárbara e absolutamente inimaginável.
Chamados à razão pela movimentação de pessoas e instituições entre as quais a Câmara Municipal e diversas Juntas e Assembleias de Freguesia dos municípios de Estarreja e Murtosa, os governos de Durão Barroso e Santana Lopes, anunciaram publicamente e a contento da generalidade do povo, que a construção do IC1 a nascente seria um caso encerrado. A obra iria ser construída a poente.
Mas... novo governo, novo projecto! E novamente a nascente.
O traçado foi delineado, as marcações feitas, os proprietários dos terrenos contactados, o projecto esteve em consulta pública (quantos cidadãos souberam de tal? Que publicidade foi feita a este respeito?) e, aparentemente, tudo está pronto para que finalmente o IC1 - agora baptizado de A 29 - possa ser construído. Não a poente - onde a maioria dos terrenos está posto ao abandono - pois é importante não desalojar a passarada que por aí se encontra, mas a nascente, pelos melhores terrenos agrícolas e pelas casas adentro, sem dó nem piedade de quem por lá passou uma vida inteira.
Milhões de euros irão ser enterrados numa obra fútil, e que não vem resolver coisa nenhuma em termos de trânsito. Milhões que, segundo se diz e se faz crer, não os há para manter escolas em funcionamento, hospitais, cresces, lares e outros equipamentos tão necessários à vida e ao desenvolvimento dos cidadãos. Lentamente se vão invertendo os valores da sociedade muito por culpa de uma classe política, cada vez menos identificada com a realidade de grande parte da sociedade portuguesa. E porquê? Uma olhada neste link dá para se perceber claramente quem come com talheres de prata e quem não tem que comer...

(basta seleccionar o mês e ano...)

sábado, janeiro 06, 2007

REGRESSO ÀS ORIGENS

Ocupando uma área de 10,2 Km2, a freguesia de Canelas situa-se na parte sul do concelho de Estarreja, entre Salreu - a norte, e Fermelã - a sul.

É atravessada pela Estrada Nacional 109 que, durante muitas décadas, foi uma das mais importantes vias de comunicação do País, pela auto-estrada A1, pela linha do Norte dos caminhos de ferro e, em breve, sê-lo-á também pela A29.

Daqui se avistam diversas outras terras tais como, Fermelã, Angeja, Cacia, Salreu e Veiros. Em noites claras, facilmente o nosso olhar descobre o farol da Barra, ou divaga melancolicamente pela linha do horizonte que nos transporta até ao litoral.

A origem do topónimo "Canelas", não é de fácil determinação. Se há quem defenda que o mesmo tem origem medieval e provém do substantivo Canna (Cana, junco) e que provavelmente teria uma relação directa com os canaviais aqui existentes, outros há que atribuem essa responsabilidade às inúmeras fontes e rios (canalis) aqui existentes e que com alguma facilidade se avistavam do mar.
Canelas possui ainda hoje um braço navegável da ria de Aveiro, que em tempos terá sido uma importante via de comunicação responsável por importações de vulto, como por exemplo a pedra d'Ançã presente em quantidade assinalável na Igreja da freguesia. Esta pedra de calcário brando, era transportada em carros de bois até à ribeira de Ançã seguindo depois até ao rio Mondego e desde aí até ao mar, donde seguia então para os diferentes destinos no país e estrangeiro.
Esta privilegiada ligação com o mar terá permitido também a deslocação a esta terra das tripulações dos barcos que passavam ao longo da costa, a fim de se abastecerem de bens e, essencialmente, da água potável que aqui havia em abundância.
Os primeiros habitantes desta região terão, muito provavelmente, sido pré-romanos. No entanto, os documentos mais antigos de que há conhecimento e que se lhe referem, dizem respeito à larga doação , no ano de 1064, que Transtina Pinioliz fez à irmã Sancha, em que se inclui a Villa rústica de Canellas que ela mesma tinha adquirido.
Outros documentos datados de 1077 fazem igualmente referência a Canellas, Riu Sicu e Fermellana.


No mapa referente ao séc. XI pode ver-se a inclusão de Canelas e Fermellana, não se encontrando ainda referencias a Salreu, Beduído e outras freguesias do concelho de Estarreja.

Canelas pertenceu aos marqueses de Angeja que tinham autoridade sobre os antigos concelhos de Angeja e Figueiredo (mais tarde Bemposta) tendo beneficiado do seu foral, datado de 15 de Agosto de 1514.
Em 1527, por ordem e determinação de D. João III, foi feito o primeiro censo em Portugal e Canelas é registada como pertencendo ao concelho de Figueiredo.
A partir de 31 de Dezembro de 1853 com a extinção do Concelho de Angeja, passou a pertencer ao Concelho de Estarreja.
No contexto religioso, a freguesia de S. Tomé de Canelas era da apresentação do reitor de Fermelã, no termo da vila da Bemposta, passando mais tarde a reitoria.
Descrições do séc. XIX referem que "o pároco é cura apresentado pelo reitor de Fermelã, tem renda de 18 mil réis em dinheiro, 6 almudes de vinho, 6 alqueires de trigo que lhe dão as religiosas do Convento de Jesus de Aveiro, por serem senhores dos dízimos desta freguesia".

Os censos de 1864 atribuiam à freguesia de Canelas 1409 habitantes e a Fermelã 1709. Hoje ambas as freguesias têm sensivelmente o mesmo número de almas: 1486 vivem em Canelas e 1482 em Fermelã. Ou seja: decorridos 150 anos, a nível demográfico, tudo continua na mesma...

Agradecimento: ao Sr. Álvaro Oliveira pela cedência do mapa que ilustra este post.