Neste Blog continua a escrever-se Português de Portugal.

quinta-feira, agosto 31, 2006

A MORTE DO CAMALEÃO


Abandonado por tudo e todos ali permanece, no seu silêncio agonizante, o grande camaleão.
Mergulhado na sua triste solidão, lembrar-se-á ainda dos dias em que, imponente e cheio de vigor, avançava por entre searas de trigo, devorando vorazmente a paisagem doirada que lhe servia de alimento.
Esventrado de alguns órgãos internos vai perdendo, silenciosamente, as suas faculdades de se enquadrar e confundir com o meio ambiente...
A morte é sempre a morte mas até nela, e sobretudo nela, deve haver dignidade e o camaleão - este camaleão - também a merece.

quarta-feira, agosto 30, 2006

PORQUE ME APETECE...



- Vista -

Neste ameno vergel, alcatifado
Pelas cândidas mãos da Primavera,
Lança a vista, Marília, olha, pondera,
Com que rico primor não foi bordado.

Com flores mil, cheirosas, matizado
Por ela foi, à imitação da esfera.
Ah! Que o Eden talvez, meu bem, não era
Mais aprazível quando foi criado.

Vê nos ramos das árvores floridas
As namoradas aves com doçura
Em amorosos nexos entretidas.

Ah! Marília, que angélica pintura!
Nossas almas também assim unidas
Gosam co'a vista o quadro da ternura.

Francisco Bingre
- imagens - Campo de Canelas -



sábado, agosto 26, 2006

POETA BINGRE


Nesta aldeia da Canelas, a 9 de Julho de 1763, nascia aquele que viria a ser considerado pela crítica do seu tempo e não só, o maior Poeta do Distrito de Aveiro: Francisco Joaquim Bingre, filho de Manuel Fernandes e Ana Maria Clara Hibinguer, de Viena de Áustria.
Aqui passou os primeiros anos até seus pais o levaram para Lisboa, para uma casa de comércio de uns Alemães com quem tinham sociedade, a fim de ali ser educado e instruído.
Parece que Bingre não era muito de escola e acabou por não completar os estudos, dedicando-se também ao comércio e à escrita. No entanto os negócios nunca lhe correram de feição e o avolumar de dívidas surgiu naturalmente.

Por volta dos trinta anos volta à terra natal e casa-se com Ana Maria Pires que lhe dá 6 filhos, para em 1794 regressar novamente a Lisboa onde, uma vez mais, o infortúnio o persegue.
Dotado de uma capacidade improvisadora notável, facilmente se excedia não havendo naquele tempo outeiro, serenata ou função para que não fosse convidado; tanto que a sua mulher três vezes se vestiu de luto ao julgá-lo morto ou embarcado. Ao fim de oito dias aparecia, rouco, completamente esgotado de improvizar com Bocage ficando de cama três dias consecutivos a recuperar as forças.
A vila de Mira, no distrito de Aveiro, acolhe-o entre 1801 e 1834. Aí exerceu as funções de escrivão do Juízo, câmara e tabelião.
Morre a 26 de Março de 1865 na mais profunda miséria. Jaz sepultado na casa dos ossos da Igreja de Mira.


Influenciado pelo Romantismo, Bingre deixou-nos uma vastíssima obra, distribuida por cerca de 1120 sonetos, odes, sátiras, madrigais, farsas, elegias, fábulas cançonetas, epístolas, hinos, etc,.
Foi um dos fundadores da Academia das Belas Artes, mais tarde conhecida por Nova Arcádia. Os colegas apelidaram-no de Cisne do Vouga e muitos se renderam à suas faculdades como refere José A. Macedo
"... Bom Poeta e Judicioso Homem a qual capacidade natural supria naturalmente todos os estudos..."
Muito haveria ainda para dizer sobre Bingre e da sua tão atribulada vida que a sorte não ousou bafejar. Haverá, certamente, outra oportunidade. Aqui deixo um soneto escrito em 17 de Julho de 1851, dia em que alcançava a idade de 88 anos e se comemorava o 272º aniversário da morte de Camões:

Dezassete de Julho, aziago dia
Em que pobre morreu o Luso Homero;
Em que eu também nasci, e pobre espero
Baixar, como Camões à terra fria!

Ele, a tuba tocou d'alta poesia
E teve em paga um cru destino fero;
Eu, tentando seguir seu reverbero,
Trilhei também a mesma infausta via.

Embalado no berço foi na lama;
Deste encalhe fatal ninguém o tira;
Tal sucedeu ao épico do Gama.

Se este Vate imortal com fome expira,
Ele ao menos, ganhou eterna fama;
Eu, nem fama nem pão ganhei co'a lira.

Hoje, o poeta continua votado ao esquecimento das gentes da sua terra e do concelho: não há uma rua, uma estátua, um jardim com o seu nome. Apenas um largo e uma placa assinalando a casa onde nasceu. Muito pouco para um tão ilustre filho desta terra.
A dois passos de mais uma Semana (dita) Cultural, haveria aqui motivo mais do que suficiente para se fazer Cultura. Ou não?...

NOTÍCIAS DA ALDEIA

Teria forçosamente de começar esta minha aventura por fazer uma referência pública ao companheiro e conterrâneo A. C. pelo seu Blogue Notícias da Aldeia.
O seu olhar incisivo, muito bem auxiliado por uma excelente documentação fotográfica, aliados a uma facilidade de escrita, difícil de encontrar hoje nos alunos saídos das Universidades deste País, demonstram a insatisfação que entre muitos de nós começa a tomar forma. Pena é que a maior parte dos habitantes desta adormecida terra continuem no marasmo dessa sonolência, pois há muito que o despertador está por aí esquecido nos recantos do tempo sem que haja alguém que lhe dê corda...
Sem qualquer pretensão de conseguir um trabalho do nível a que já nos habituou quero, no entanto, dizer-lhe que, a partir de agora, já seremos dois, amanhã poderemos ser três e, quem sabe... um dia seremos muitos, a amar esta nossa terra!

A ABRIR

Aqui, onde me encontro, olho através da vidraça e devoro facilmente város quilómetros de distância.
Em primeiro plano algumas árvores que se agitam tão suavemente como se quisessem embalar os ninhos dos pássaros que nelas se escondem...
Mais à frente, a cor dos telhados contrasta numa harmonia quase perfeita. Depois se avista ainda a quietude de uma povoação vizinha e, mais longe, erguem-se imponentes algumas torres de uma fábrica de papel.
Lá fora os pássaros brincam, esvoaçam, saltitam de ramo em ramo...
Abro a janela e deixo entrar uma suave brisa que teima em levar-me da secretária alguns papéis menos arrumados.
Tudo parece perfeito! Será?...
Saio.
Caminhando ao acaso tropeço facilmente em situações (i)reais, quais "pedras no sapato" de uma gente habituada a ver, impávida e serenamente, a vida a correr como um barco Sem Rumo...
Gente simples, pacata e de boas maneiras a quem, com a maior das facilidades, se lhe dá um soco na boca do estomago. E a vida continua... Sem Rumo, claro!!!